28.11.12

Mencantas

dois olhos bondosos
e a imensidão de um céu cheio de vento no reflexo deles
e a barba que enrosca no meu cabelo despenteado
imensamente conectados
afetoluzenergiamor

conversas sobre a mãe-terra e generosidade
conversas de encaminhamentos de almas e karmas
conversas temperadas com cravo e canela
um suco de laranja, um chá de angico
e flores espalhadas pelos vasos coloridos nas janelas

coincidências astronômicas, de números, de irmãos

um sonho por um sonho
de creme

sorrisos sorrisos sorrisos sorrisos sorrisos sorrisos sorrisos

e abraços sem fim...




"Me desassossega, rega a alma, roga a calma em minha travessia
(...) Nos amorizar o dia, fio, corredor, a calçada, o passeio e a sala
Se perder sem se podar e se importar comigo
Aprender você sem te prender comigo"
(Trechos de Você me bagunça - O Teatro Mágico)

9.11.12

Incandescente

A mulher dança na rua, ensopada de chuva azul e suor de mel. As roupas, feitas da junção de milhares de flores, grudam-se ao corpo macio, os braços movimentam-se graciosos, as pernas e pés deslizam sobre as poças, os cabelos enrolados e negros embalam-se com o movimento dos quadris. O vento traz consigo o cheiro do gengibre dos chás, e os filhos e as filhas, cujos pais são todos desconhecidos, dançam ao redor da mãe cigana, tomados pela mesma alegria. E a música flui por dentro dos corpos insanos, cantada pelos Seres Maiores, plenos de bondade, que habitam casas de árvores no centro do pântano que fica ao sul.
Depois que a chuva passa, regressam ao barraco familiar, um só cômodo cheio de bauzinhos onde as crianças guardam seus brinquedos-tesouros feitos de pedaços de Lua. Quando resolvem que é hora de dormir, deitam-se assim meio de lado sobre a terra quente e tão logo adormecem, o corpo trata de aquecer-se em febre e os sonhos são sempre muito lindos.

Certa noite a mãe sentou-se no meio da casa e espalhou as muitas cartas do baralho que era da bisavó.
As crianças ficaram atentas esperando o sortilégio, aguardando ansiosas boas novidades. Depois de virar a última carta, desenhada com pássaros e um sol magnífico, a mulher levantou-se, puxou a saia para que não tropeçasse nos panos enquanto caminhava, e cantou sobre o desenho das estrelas no céu e sobre astronautas. A casa converteu-se em sorrisos e encantamentos: a Lua choveria de novo na próxima semana.

A Lua chove em pedaços cujas formas parecem nuvens, esbranquiçados, e eles se encaixam formando mil coisas. E a Lua tem cheiro de goiaba. Tudo é festa quando a Lua chove.




Noutra noite, depois da chuva da Lua, a mãe acordou todos os filhos e todas as filhas e organizou-os de tal forma que cada mais velho tinha em seu colo um irmão dois anos mais novo. Assim que eles aquietaram-se, ela falou sorrindo, doce e sublime:
- Sonhei que toda pessoa pura e bonita convertia-se em estrela. Não que se aquecesse ou se esfriasse, muito ou pouco, mas emitia luz.



As crianças olharam-se encandilhadas* e em segundos as pupilas dilataram-se violentamente.

O brilho da casa foi visto de longe.









*"Encandilhar" deriva de "incandescente", na língua portuguesa existe como como o verbo "deslumbrar".

27.10.12

Sobre as combinações de fios e as vidas (s)em cores

Cloto* tece meu fio da vida em linhas banhadas de cores
segura o fuso e fia, cuidando da vida de deuses e humanos
durante todos os muitos movimentos terrestres
em seu aposento celeste, intocável
ao lado de suas outras duas irmãs, fúnebres

Eu passei minha vida metamorfoseando tais cores
corpoalmacoraçãoemente
Meu eu de agora não se reconhece em meu eu de alguns poucos anos atrás
eu não sei explicar se isso é bom
mas me sinto em paz durante quase todo o tempo

Láquesis* sorteia minha passagem em vida
puxa e enrola o fio que Cloto lhe oferece sem sorrir
A Roda da Fortuna gira e gira feito a roda-gigante verde da praça
acho que agora estou no período inferior
menos desejável
ou talvez eu só esteja olhando as coisas de cabeça pra baixo
e ainda não percebi


Em que momento de tantas estradas,
sorrisos, sangue, suor e letras
meu fio enroscou em tantos outros fios?
E por quê?


Sinto que Átropos* afastou o pequeno nó
que eu deixei formar na minha linha
com outros fios
E, sem tirar a vida de nós, afastou-os enquanto eu lacrimejava

Mas algum nó em minha mente permanece...



Ontem conversei com um Leão vermelho e o que ele me disse ecoou em sonhos
"Não gaste essa tua energia tão linda com esses pensamentos, menina
o que as pessoas fazem às vezes é muito pequeno diante de tudo do mundo


Nós estamos no caminho
e tu és luz"





*Moiras, mitologia grega - três mulheres responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio da vida de todos os seres.

1.10.12

6:59 AM - Shane Koyczan

eu tenho dito
que as pessoas no exército
fazem mais às 7 am
do que eu
em um dia inteiro

mas se eu acordar
às 6:59 am
e ir até você
para traçar a linha dos seus lábios
com os meus
eu terei feito o suficiente
e não terei matado ninguém
no processo.

23.9.12

Bilhete (des)Anônimo 2

I
"Tenho orgulho da mulher forte e corajosa que és. Me inspiras grandes personagens que conheci em filmes e livros. Tens a leveza da brisa e a força da ventania. Nada em ti se acomoda, represa. És o movimento natural da vida, sem temer que ela um dia termine. Se pudesse nascer de novo, seria Tainah. Minha profunda admiração pelo que és e serás.

Não és só menina-flor: és mulher-liberdade."




II
"Queria ter a tua força neste momento, mas só conto com um coração estilhaçado. Não verei mais teu rostinho, nem os teus cabelos de mulher-liberdade. Guardarei com o carinho e com a admiração que só temos por pessoas que nos mostram um mundo diferente.

Obrigada por ter cruzado meu caminho. Jamais me esquecerei do carinho que sempre tivesses por mim."




(Vi)




São coisas da vida
e a gente se olha
e não sabe 
se vai
ou
se fica.

18.9.12

Assoprando

Acendi uma vela pra Hanuman 
enquanto o vento ia levando tudo embora
a cera aos poucos derreteu
e acumulou-se no peitoral da janela








à noite, mil trovões iluminaram o quarto
cobertas coloridas
livros
sorrisos
e uma confusão de pernas.







Hanuman é um deus hindu, filho do Deus do vento
- ontem o vento arrancou árvores por aqui...

9.9.12

Bilhete Anônimo 1

"Te vejo aí do meu lado, esse cabelo todo jogado, enrolado na ponta feito onda de mar e toda vez que eu te olho eu sorrio. Ai, gurizinho, como pode? É paixão, encanto e amor que eu sinto, eu latejo por ti através de todo o meu corpo, músculos, sangue, formando um som que te embala pra mim. Vem e deita na rede comigo, te faço um suco de limão..."

Eu te ouvia sussurrar em meio aos delírios "mas meu amor, meu amor, que grande tolice... Esse mundo jamais será tão simples..."


Eu acho que te respirei em alguma parte do caminho
e tu espalhou raízes pelos três corações que me habitam
- de meu corpo, de meu pensamento, de minha alma -

Meu pulmão esquerdo tornou-se vermelho de tão quente
virou um forno de onde o sopro vem deixar teu rosto corado
e quando faz muito frio aqui fora, ele põe-se a trabalhar
e eu sinto esse lado de minhas costas ardendo
Na minha pele a queimadura de calor desce por minhas costelas até o umbigo
e a casa de ti, que sou eu, delira de febre interna

Meu pulmão direito comporta-se de modo contrário
ele parece feito apenas de gelo, e sopra muito frio
e quando o sol quase me faz pegar fogo e esse fogo tenta te alcançar
meu pulmão trabalha pra que o clima permaneça ameno
e pra que toda essa quentura não te acorde dos teus sonhos bons
Na minha pele a queimadura de frio desce por minhas costelas até o umbigo
e a casa de ti, que sou eu, congela até os ossos

Meu pensamento voa feito grão de areia carregado pela água
eu já viajei o mundo inteiro e tu esteves sempre junto
levado comigo feito um filho que eu carregaria no ventre
feito os deuses e deusas do meu cosmos tão brilhante
feito meu próprio corpo quando eu o deixo ser levado pela água também

E a minha alma te aceitou de bom grado desde que eu te vi
tão em paz, sorrindo, vida mansa cheio de boa fé
Eu não poderia ter me encantado mais por outro alguém.

Eu te ouvia sussurrar em meio aos delírios "amor, meu amor, me deixe estar por aqui. Essa água nos leva tranquilos, leva a mim, a ti e a nosso nakal. E eu te quero tanto e tanto..."





"Nakal" é uma palavra nahuatl. Significa "mi barco, mi nave"

Inspirado em Casa-de-Pessoa por Ana Terra de Leon :)

26.8.12

É chegada a hora de sentar-me na cadeira de balanço, trançar os cabelos queimados de sol
refletir sem ser num espelho o quanto o mundo descoloriu-me
e recoloriu-me
Minhas pernas sangram em microcortes causados pelos galhos baixos do caminho
corri me escondendo do sol do meio-dia que avermelhava minha pele
Feito mar de ressaca eu espalho minhas águas pra todos os lados
elas iniciam pelos meus olhos e escorrem pelo meu corpo,
pingam no chão formando desenhos explodidos
Quando as lágrimas secam em seu caminho formam-se ramos
eles enroscam-se em minhas orelhas, dão voltas em meus braços, abraçam meu quadril
e as flores surgem pequenas em meu pescoço, na cintura e atrás dos joelhos.

Eu tenho sentido uma grande chateação e certa angústia por causa do teu silêncio
ele me arranca desenhos cinzas e momentos inteiros de olhar-pro-teto
Te imagino sorrindo feito um bobo
sentado por cima da grama úmida de um lar de árvores
e sorrio por causa do enorme carinho que tenho por ti
Mas eu me sinto fraca e meus pés estão gelados
porque fraqueza e frio é o que sinto quando desperdiço ternura e afeto
com alguém que simplesmente me ignora.

E daí as lágrimas voltam a molhar meu rosto
agora bronzeado do mesmo sol que antes me queimava
Abro as janelas o máximo possível
e o vento vem fazer tremer os vidros e assusta meu gato gris
e ele sai correndo até a sala com paredes preenchidas de fotografias
Vou pra rua até perto daquele banquinho da praça
vinte mil passarinhos cantam preenchendo o meu vazio
e no canto deles, feito ramo de flor, eu enrolo-me.

12.8.12

Eu e tu cheíssimos de letras e ideias e sonhos
és um menino-menino magrelo com um gato preto no colo
és um menino-moço com cabelos compridos e um cavalo chamado Morcego
és um menino-pai que me ama, que me ajuda, que me ampara
que me ensina, me entende, me alegra, me felicita
que me conhece, me orgulha e me faz ser muito apaixonada por ti


Em um mundo tão cheio de coisas feitas pra vendaecompra alucinada
dentro de caixas enfeitadas de vidros coloridos sem janelas
pra ninguém ver que o dia se vai
ou dentro dos carros onde as pessoas cantam com a rádio
e além do mar do céu das montanhas pequenas ao nosso redor
o sol se vai, levando mais um dia consigo
- é o segundo domingo de Agosto e alguém decidiu que é data dos pais


Em um mundo tão cheio de paredes e muros e portas
que impedem o voo do vento por cima de toda a terra que existe
eu deixo que o vento voe por entre teus cabelos-folhas negros, pai
e eu exalo gratidão, amor, carinhos e muito afeto pra ti

Em um mundo tão cheio de concreto e cimento e tijolos
cheio de pessoas-maquiagens pessoas-sapatos
pessoas-roupas pessoas-corpos pessoas-coisas




obrigada por ter me feito pessoa-flor.
Eu te amo.

31.7.12

Aditi*

Daqui ela vê um deserto envelhecido. Há montes de areias por todas as partes e o vento chega frio, acariciando a nuca e arrepiando os pelos dos braços. O cabelo comprido, enrolado feito um novelo de lã sujo, brilha lindamente quando os raios de sol o tocam - o quartzo refletido é rosa, azul, roxo.
-Você é uma de minhas joias. - dizia papai, enternecido. -Você brilha debaixo do sol e brilha quando se faz noite muito escura, menina, porque você sorri demais.

 Papai foi à procura de flores pra ela enroscar nos cabelos sujos e nunca mais voltou.

O vô que morava na cabana da frente dizia que papai tinha afundado em um dos montes de areia e o sol secou toda a água do corpo dele. Que ele nunca mais voltaria, e se voltasse, seria um esqueleto. E que era pra ela parar de chorar, que daqui a pouco quem secava era ela.
O vô nunca foi um sujeito muito querido. Ele batia os nós dos dedos na testa da menina e falava que o toc toc significava cabeça vazia. Uma vez a menina zangou-se e saiu pelos cômodos aos berros:
-Eu não tenho a cabeça vazia! Eu tenho um céu dentro da minha cabeça! O senhor não sabe, vô, mas eu conto estrelas e as nomeio... E toda noite pelo menos mais umas trinta se exibem porque também querem nomes.

A mamãe vinha e dançava em voltas com ela, rodavam e rodavam até caírem de tontura e de tantos risos no chão dourado, a areia quente se fazia cama e os olhos fechavam pra um sonho em um jardim preenchido de cores.
Mamãe não sabia ler. Mamãe não falava do jeito que as pessoas acham que é certo. Mas ela era um anjo de bondade e sempre sabia qual nome a menina ainda não tinha usado às suas estrelas.

Certa noite a menina decidiu sair à procura do pai. Comeu a farinha feita de areia, junto ao bolinho feito dessa mesma farinha juntada com todo o suor de sua gente, e ao fim tomou dois golinhos da garrafa de vidro trincado que guardava as lágrimas do último choro chorado junto por todos no último enterro - porque água de chuva não há.
Colocou sua saia mais bonita e leve, a blusa que mamãe bordou, encheu-se de coragem e caminhou pra dentro da noite escura.

-Minha fia? - mamãe chegou à porta, o vento quente do aviso de tempestade balançando o vestido comprido, o tecido fazendo cócegas nas coxas finas - Acho que ocê tá se esqueceno de levá a lanterna.



*Personagem da mitologia hindu, é a deusa mãe do céu. Seu nome, em sânscrito, significa "livre, desimpedido, infinito".

11.7.12

Álgido

Essa noite eles viram neve descendo do céu. O reflexo tênue das luzes dos poucos postes pela rua quase fizeram os flocos parecerem estrelas. Angaraka, a estrela-vermelha da guerra, olhava pra eles de longe, encaixada em sua órbita, tendo como companhias de sempre Medo e Pânico - os dois filhos queridos; na Terra, dois filhos de algo-nenhum sentiam o corpo gelar, a pele ardia, as roupas finas e rasgadas não protegiam do vento e os olhos lacrimejaram ao mesmo tempo, uma harmonia desesperançada orquestrada pelo choro quase inaudível e o tremor de toda a carne.
Quando os olhos se abriram, a cidade estava coberta de branco. Nada se via além de quatro passos pra qualquer lado que se fosse. A rua que anoiteceu deserta amanheceu igual. O silêncio ainda deixava escutar os ventos, e os ventos levaram pros ouvidos dos que se arriscaram a sair de casa os lamentos de duas almas infelizes. O solo recebeu os pés descalços e machucados carinhosamente, assim como receberia os dois corpos tempos mais tarde. Do céu, quem os observava agora era a estrela d'Alva do amor, acompanhada de perto por Neith.
Ela e ele se entreolharam por uma fração bastante longa de tempo (bastante longa, exatamente assim, sem clareza nenhuma). As mãos seguraram-se firmemente, uma força maior que a fome que contorcia suas entranhas. O mundo ao redor agora se exibia, mil vitrines com roupas e calçados e jóias e perfumes e eletrodomésticos pra sociedade comprar e achar que alcançou a felicidade plena. Outros mil restaurantes com tantos quilos de animais mortos pra sociedade se deliciar. Moças ditas bonitas dançavam na televisão com moços ditos bonitos, e a vida parecia sempre tão boa e justa no comercial daquele apartamento... Tudo isso parecia tão espetacular.



O espetáculo praqueles dois, entretanto, não era isso tudo. Nunca foi.

Era a cidade coberta de neve e era o frio. Eram Medo e Pânico andando de mãos dadas, acompanhando apressados os passos do pai Angaraka. Era estrela d'Alva surgindo no céu antes do Sol, trazendo no colo Neith. Era a troca de olhares que inexplicavelmente levou embora toda a desesperança e toda a tristeza, e as mãos unidas que fizeram esquecer toda a fome.




E a invisibilidade do casal foi embora quando o botão da câmera do fotógrafo da grande mídia impressa controlada pelos grandes fez clic. Ele quis fazer daquele momento a capa de todos os jornais do dia, e tanto insistiu que os grandes o demitiram. Demitiram ele porque a sensibilidade não serve nem para os ratos. 


(E os raros?)







Álgido vem do latim Algidus: "o que está frio".
Angaraka é o nome dado à Marte na Babilônia. Significa "coração ardente".
Medo e Pânico vêm do grego Phobos e Deimos, os nomes das duas luas de Marte.
Estrela d'Alva é o nome popular de Vênus.
A lua de Vênus chama-se Neith - a deusa egípcia dos céus.
A Sociedade do Espetáculo é um livro.
Os raros vêm d'outro livro: O Lobo da Estepe.

4.7.12

Colorfrágio

Eu vi você brilhar ao sol e transformar o céu negro da noite
muito mais de mil tons de amarelo-laranja-azul-vermelho-verde
explodindo através de minhas pálpebras semicerradas.
E lacrimejei, o choro escorreu até o sorriso que sorri
só pra ti.
O sol permaneceu brilhando maravilhoso
(porque uma de suas filhas raio de sol estava contente)
as árvores e suas copas balançaram em um vento norte que beijou seu rosto em meu lugar
e nas tonturas de tanta dança você sorriu
só pra mim.

Você sente?



As suas cores explodidas pelo céu transformaram o tudo em chuva
- e os homens que se dizem tão sábios e que possuem a mania de definir tudo
e não conseguiram definir isso
então definiram como tolos aqueles que se encantaram pelo céu sangrado em cores
e que pararam hoje à tarde pra escutar a música cantada por aquele violão velho no centro da cidade.

A chuva manchou a face da lua voltada pra Terra.
Muito mais de mil sorrisos matizados
só pra nós.



Eu sinto.






Cada blanco de mi mente
se vuelve color con verte.

1.7.12

Bagunçando

Anda-se duas quadras daqui até a praia. Da praia, inclina-se em 60° a cabeça para trás. A lua que agora (a)parece cheia está localizada a alguns muitos quilômetros de distância. Do céu, muitos milhares de ondas de luz dançam, mesmo que as estrelas há muito tenham morrido. Na areia, os pés dançam em contornos de arcos, uma trigonometria desajeitada que faz desenhos pra lua e pro mar. No mar, o contorno de outras ondas eleva a água muito pra cima e traz muito pra baixo na cava, a gravidade que não nos deixa voar agindo em outros corpos.

 Dispensar essa vida com olhares tão humanos.
 Talvez eu não precise de métricas.

 Anteontem eu sonhei com o mar de novo.
Acho que eu só sonho com o que eu quero por perto.

19.6.12

Eu morava em uma casa que aos fundos tinha um campo de morangos.
Meus dois dálmatas ficavam acorrentados na parte da garagem.
Uma vez soltaram eles e eles fugiram, e logo depois assaltaram a casa.
Desse modo, a minha casa perdeu alguns copos e móveis
e eu perdi dois amores
- perdi também a inocência de jamais terem tirado de mim
de uma forma tão violenta
algo que eu amava.
(mas é como se eles estivessem sempre no portão daqui do prédio,
e ainda fizessem festa quando eu chego em casa depois de um dia inteiro ausente)


Até hoje eu já perdi muitas coisas mais. Quase sempre eu me perco no tempo
Porque o relógio pra mim é algo desgostoso,
que me controla e que não me liberta;
Que me prende em afazeres e horários e compromissos
que não me libertam;
Que não me faz andar na vida e que só sabe andar pra frente
com suas pernas-ponteiros
e que não me deixa fingir que Apolo ainda faz sombra pequena a meus pés.


Se fosse sempre meio-dia, e que esse dia fosse quarta,
e que eu só tivesse que escutar o vento passar sibilariando pelas minhas orelhas
Que o tempo fosse ameno e que existissem sempre mãos e dedos em laços e voltas
e Apolo escondesse em seus bolsos a senhora Despedida.


Quase sempre eu me perco no céu
Porque o céu me acolhe quando tudo vai bem
e quando ele vomita raios e sangue em forma de água
chorando a antropização em ultraescala que faz a terra sangrar também.
Que ele me acolha sempre, igualmente lindo e sereno independente dos temporais.


No céu que habitam as estrelas e os planetas e tudo que é muito maior do que nós,
todos os deuses e deusas que geraram o tudo,
as flores, os seres, os ventres,
os sonhos,
os sonhos
e os sonhos.
Que eu durma e não me sinta só.

Quando eu era mais nova, pisava nos morangos de pés descalços
e eles explodiam entre os meus dedos sujos de menina-esporo largada no vento.




Talvez eu tenha flutuado um pouco longe demais do chão escrevendo isso aqui.
Hoje eu te vi por aí e acho que meu estômago virou ao contrário.

6.6.12

O abrigo da loucura


Revirou-se na cama desajeitada, o torso enrolado em lençóis roxos. Já há meia hora ele estava acordado mas não queria levantar, mergulhado nos braços da Deusa Preguiça, que acariciava gentilmente os cabelos muito negros, mas sem vida. Olhou pela rachadura no vidro da janela, o vento uivando feroz lá pra fora, e contrariado decidiu sair de casa. Há quanto tempo exatamente ele não saía daquela caixa? Ele não gostaria de saber, mas ficou curioso, porque de fato parece um pouco estranho estar perdido no tempo.
O chão, gelado do inverno, recebeu os pés quentes saídos debaixo das cobertas e o choque térmico provocou um “Ai” sussurrado. A própria voz rouca o assustou. Passou do quarto à cozinha em três passos largos, e agora tremendo de frio fez um café fraco pra que a Deusa Preguiça o deixasse sozinho em casa, como sempre foi, e ela beijou-lhe a face sem cor e sorriu pros olhos azuis rodeados pelas olheiras macabras, dizendo “Tchau, moço bonito”. Ele entornou o resto do líquido sujo goela abaixo e fez uma careta de nojo, “Mas que vida”, ele pensou consigo, o pensamento também rouco, “Mas que vida terrível”. Abriu a porta que rangeu queixosa e ao fechar reparou na tinta verde bizarra descascando e acumulando-se na soleira. Do outro lado da rua, um gato preto e pançudo atenciosamente seguiu seus passos até o fim da ruela, o corpo sumindo na avenida principal entre os montes de luzes.
E as luzes o deixaram cego por alguns instantes, a pupila dilatada recolheu-se violentamente dentro do azul. Recuperando-se, caminhou algumas centenas de metros à esquerda, deixando as pernas magras guiarem, sem reparar que aproximava-se do cume gigantesco - o maior da cidade -, em seu topo a velha mansão da família. Mamãe o mataria se o visse daquele jeito, esfarrapado, emagrecido, adoentado e um tanto ensandecido, ela o mataria, sim, senhor, se não tivesse sido morta há alguns anos pela própria irmã mais nova; e seu pai certamente o olharia daquele jeito meio torto, aquele velho corcunda incapaz de demonstrar afeto, sempre falando sozinho, os olhos de olhar torto girando nas órbitas enquanto ele dormia e sonhava com sabe-se lá que tipo de demônio.
Quando chegou ao topo do morro, ofegante, sentindo o suor escorrer desde as têmporas ao queixo e até mesmo atrás dos joelhos aos calcanhares, viu a cidade embaixo fervendo, cigarros acesos a cada esquina, cada quadra recheada de lojas, cada loja preenchida dessas coisas tolas que ele não desejava ter por perto. Foi-se chegando à casa, sentindo na boca desde os primeiros degraus da escada de pedra aquele gosto de chá de canela muito doce, misturando-se aos sons dos risos dos primos aos sábados, e o cheiro da pólvora que escapou da arma quando titia puxou o gatilho com o cano encostado na cabeça da mamãe. A lembrança do sangue derramado dos miolos pelo piso de linóleo quadriculado preto-e-branco esvaneceu assim que ele chegou à porta enorme da entrada, os trincos de ferro avermelhados de oxidação e o olho-mágico em caleidoscópio encaixado na altura da garganta, e lá dentro o chão carcomido pelos cupins insaciáveis estralou.
A porta abriu lenta e deixou ver o hall de entrada, no centro uma única lâmpada do lustre arcaico insistia em brilhar, bruxuleante. Além do buraco no chão provocado pelos cupins, nada mais se notava por ali, e ele entrou, os sentidos cada vez mais cheios do gosto, do som e do cheiro de antes. Chegando ao centro do cômodo, logo abaixo do lustre, a lâmpada estourou e o vidro caiu quente no braço descoberto. Logo o sangue pingou pelo corte pequeno e, outra vez, o chão estralou.
E então, uma voz e um susto. Não o tipo de susto que se dá quando alguém espera ao lado da porta e berra, e então há risadas, ou o tipo de susto que acontece quando se pensa que no final da escada tem um degrau que na verdade não tem, e pisa em falso. Assustado porque no ouvido direito uma voz sufocada e estridente falou aos prantos “Meu filhinho, cabelos negros, olhe só o que fizeram comig...” e a explosão da bala estourou seu tímpano, provocando no fim um som agudo que o estonteou, e ele berrou o nome da mãe no meio da sala vazia, o berro ecoando pelas paredes, alcançando a sala de jantar que ficava ao fundo da entrada, em linha reta, e subindo a escada em caracol que ia dar nos quartos. Passou a mão pela orelha que sangrava e mal pode conter os lamúrios de dor.
Da sala de jantar, titia veio correndo e sorrindo, o vestido amarelo de sempre balançando nos joelhos, os cabelos loiros presos em tranças. Segurou firme a mão dele, “Meu Deus, como tu estás gelada!” ele exclamou, e ela riu, mostrando os dentes sujos de terra. Foi puxando ele até a sala de jantar, e dali até a porta de saída em uma varanda voltada pro jardim, agora completamente cinza. Perto de uma árvore ressecada que antigamente abasteceria as tigelas de barro da cozinha com frutas pequenas, vermelhas e azedas, uma figura encurvada coçava a orelha direita e, entre as palavras ininteligíveis de uma conversa consigo mesma, sorria para ele. Seu pai parecia ainda mais velho e frio agora, e o chamava pra perto. Ele foi, atordoado, as flores ao redor já murchas espirrando um perfume de enxofre e morte, acompanhando entristecidas o trilhar de dois pés quentes que não sairiam mais daquele lugar. Parou, defronte ao pai, aquele velho asqueroso, e sentiu-se febril. Da terra vinha um calor tão intenso que a única causa em que ele poderia pensar era sinistra e se chamava “Inferno”. Ele desmaiou, o corpo fervendo bateu na terra produzindo um baque abafado, e seu pai gargalhou insanamente. Titia, sentada no entorno de ferro da varanda, continuava a rir, insuportável, fitando encantada as mãos sujas com o sangue do ouvido do sobrinho enlouquecido.

28.5.12

Eu sou o Atlas, meu bem, pode deixar que eu aguento
eu vou segurar o mundo inteiro em minhas costas pra você permanecer leve.
Pode deixar que nada vai te atingir enquanto eu estiver aqui
apesar de eu sentir alguns ossos meus quebrando e meu sorriso desvanecendo.
Eu vou suportar a chuva entristecida que cai da nuvem sobre o nosso teto
- nesses últimos tempos o céu tem se banqueteado com minha vida
e com minha vontade de mexer qualquer músculo.
Meus pensamentos pararam. Meu coração também parou.

Eu me sinto no engarrafamento que encheu as ruas de hoje à tarde:
travada, inútil e ocupando espaço.
As buzinas preenchem o silêncio que tanto gosto.

Não parece um pouco estranho eu escrever assim tão dramática?
Talvez tenham enfiado um gancho por dentro da minha carne
e tudo o que sai são filetes de sangue azul e roxo enroscados na ponta
E dos machucados pelos quais o gancho entra e sai cada vez que puxam minha corda
- que nunca estoura -
meu corpo aproveita pra derramar pelo chão todos os seus males.



Tudo em mim agora é cinza, meu bem, e você nem percebeu.

4.5.12


Eu respirei Tristeza do ar e ela virou a pele do meu corpo
agora infiltra-se em tudo que eu toco
As fibras do tecido das minhas roupas viraram Decepção
e todo dia eu sinto Frio
E Solidão maltrata a minha alma,
desfazendo com a ponta dos dedos a rede que me prende em você.

Sonho me leva pra dentro da noite e me tranquiliza
enquanto as coisas por aqui permanecem Invisíveis
porque você não olha pra cá.


Alheio ao mundo, você olha a Vida passando pela janela
e o roxo da Noite te faz enxergar as estrelas
Uma fumaça cinza pode representar o que você talvez falaria pra mim,
já que ela sai de sua boca,
mas você não me dá atenção há muitos sóis.


Você chega e vai embora às pressas, de volta pra Rua
não tem mais Tempo pra me sentir por perto, mesmo eu tão próxima
- e quando fica por aqui é pra me deixar sozinha de novo.

O Corvo do Poe acabou de pousar no meu ombro e me disse
"Não há nenhuma espécie de gratidão".

27.4.12

Cinco segundos lentos


O sol brilhou enquanto você nascia, meu bem?
Ele cegaria os médicos se na sala de parto existissem janelas
Enormes janelas, de vidro de areia, abertas.
O vento suave bateria no rosto da sua mamãe, que sorria
E você aos prantos, ensanguentado, disse olá aos gritos
pra um mundo que às vezes é cruel.

E então no verão você saiu correndo pela grama do parque central
os balanços lhe embalaram em uma sensação boa
e as crianças ao redor também sorriam naquela hora.
Um picolé de uva derreteria em suas mãos pequenas e quentes
pintando um rio roxo até o cotovelo
e ao seu lado uma menina lhe olhava e sorria
e você pensava em quanto o mundo é grande e divertido.

E então no outono você correria apressado pra não perder o ônibus pra faculdade
seriam tempos difíceis, o começo do frio enregelaria seus ossos,
e esse início no mundo de adultos certas vezes te espancaria
porque ninguém por lá admite muitos erros.
Mamãe ofereceria um cachecol tricotado em lã amarela e vermelha
e ela sorriria, como sempre, você sabe.

E então no inverno a neve se depositaria nos seus ombros
e na neve você desenharia anjinhos com os dois filhos que agora tem
todos os dois nascidos em dias de chuva e raios.
Você seria feliz, não seria? Apesar do frio que te congelaria de vez os ossos.
Mamãe agora seria vovó, e logo mais ela seria lembranças
(existem certas coisas nessa vida que a gente não consegue evitar).

E então na primavera você estaria bem velho
rodeado de netos pra não te deixarem solitário em uma quarta-feira tediosa.
Poucas coisas agora seriam o suficiente - mas sempre foi assim, se você parar e reparar -
e os abraços se demorariam, os braços apertados ao redor de seus ombros.
As flores sorririam coloridas, igual à mamãe,
e o vento do dia do parto sopraria um pólen adocicado
recolhendo-se sobre o epitáfio de um homem que conseguiu ser feliz, afinal.

14.3.12

Myein*

O que ele faz aqui, em meio ao gramado ressecado de poucas chuvas, vestido muito mal e deixando o sol queimar a pele, com sede e sem ninguém pra segurar as mãos pra se sentir seguro? Ele sempre gostou dessa sensação de mãos-dadas e agora tudo o que sente é fome de atenção, de carinhos, de beijos. Senhor Sono há muito tempo o abandonou e os olhos claros ressecaram com o calor, estão fundos e o abismo que apresentam só fazem pensar em morrer antes de chegar ao solo.

Ele entrou por uma trilha que começava na rua vizinha transversal, subiu por um monte cheio de árvores fracas e retorcidas, rasgou as palmas das mãos agarrando-se aos obstáculos do íngreme caminho que o levou até o topo do morro. Quando chegou lá tudo o que encontrou foi um banco de cimento toscamente feito, e sua mãe grávida sentada e cantando melancolicamente. O frio que ele sentiu foi surreal e então tudo era sangue e gritos.

O caminho pareceu mais fácil de descer enquanto ele corria. Algum galho mais espesso atingiu-o fortemente no braço esquerdo e a cicatriz perdurou até agora. Ele vomitou o suco gástrico e desmaiou caído na rua, por cima das flores que minha tia plantou e cuidou com tanto zelo. Então ela me chamou, porque ele parecia algum amigo meu.

Mas não era ninguém. Eu não reconheci nada nele. Meus sentidos tão aguçados não sentiam nada - sem reconhecer visualmente, sem reconhecer a voz que em verdade era um suspiro, sem reconhecer o cheiro que explodia da roupa suada. Nada nele era pra mim e mesmo assim eu cuidei dele.

E então ele fugiu. Sumiu, no meio da noite de uma lua minguante e amarela, e sua mãe sangrada só sabia chorar e pedir a Deus que ele voltasse, por favor, que ele voltasse. E seu pai veio até mim e me deu um soco no meio da testa, abrindo uma fenda profunda, sua puta, olhe o que você fez.

Eu corri e esperei o sol voltar. E no meio do gramado ressecado de poucas chuvas, vestido muito mal e deixando o sol queimar a pele, com sede e sem ninguém pra segurar as mãos pra se sentir seguro, eu vi ele de novo. E quando ele me viu a gente só sorriu, porque era pra ser simples assim. Ele foi pro sul ou talvez pro norte, caminhando rapidamente. Eu peguei uma carona com um grupo de drogados e talvez esteja no noroeste agora.

Ninguém nunca mais vai saber da gente. E você não sabe de nada.


*"Mistério" vem do latim Mysterium e do grego Mysterion, “rito ou doutrina secreta”, de Mystes, “pessoa iniciada em segredos”, de Myein, “fechar”, porque ela metaforicamente fechava os olhos e a boca para não ver nem revelar os segredos que tinha aprendido.

25.2.12

-A rajada de vento veio forte dessa vez, cabelos de sopro e suspiro.
-Eu percebi, minha senhora, e senti em minha pele também.
-Escute o som lá de fora enquanto eu remendo teus cortes e teus vestidos rasgados.
-Foi o vento que passou forte, rápido e gelado demais, minha senhora. Cortou o meu rosto como se fosse uma lâmina muito afiada e o sangue respingou pela neve e nos vidros da janela. E quando eu fui tentar limpar, forcei demais e o vidro quebrou em minhas mãos também. Arde a todo momento e eu me sinto cada vez mais vazia.

Minha senhora afagou meus cabelos de sopro e suspiro enquanto eu choramingava.

-Por onde teus pés andaram, que estão sujos dessa maneira?
-Eu andei pelos quintais vizinhos e são desagradáveis. Algum animal grande me perseguiu até o final do terreno da casa roxa ali atrás, aquela que tem sempre um velho sentado à porta, me xingando de sonsa. Eu pulei os arames-farpados e me esborrachei nas pedras da frente. Talvez meus lábios estejam um pouco inchados agora, minha senhora.
-Segure em minhas mãos e venha cá, cabelos de sopro e suspiro. Talvez você precise de um passeio.

E eu saí tropeçando pelo chão da casa que gemia de velha, e rangia. E fizemos várias curvas e senti asfalto, subimos uma rua que não tinha fim e, então, paramos. Abri os olhos e só enxergava os cabelos soltos, vermelhos-rubro, de minha senhora. E seu perfume de amora me deixando tonta. Ela afagou os meus cabelos de sopro e suspiro e fez uma trança que chegou até o meio das minhas costas, perto de um dos rasgos do vestido.

-Cabelos de sopro e suspiro, tu és um desajeito completo.

9.2.12

Fluere, Okeanos

A menina abriu a porta da casa construída com muita madeira, pulou os alguns degraus da escadinha de pedra e mandou beijos ao gato gris que ficou sentado na varanda, acompanhando com os olhos atentos o risco que fez o vestido dela no rastro da corrida. Ficou de sentinela e sentiu que ela não voltaria mais, então recolheu-se em sua cama feita de caixa de sapatos e adormeceu. Ela correu até cansar, sentindo os pés descalços muito leves; a grama e a terra misturando-se à pele, os galhos baixos das plantas raspando de leve nas pernas, os mais altos enroscando-se nos cabelos desajeitados.
Quando parou percebeu que o mundo resolveu deixar o tempo lento. Um vento suave fez as folhas do chão revoarem em círculos até a altura de seus joelhos e ela sentou-se nas raízes enormes de uma árvore que tinha o rosto de sua bisavó e o cheiro inconfundível de funcho e mel. Nada parecia normal mas tudo parecia bom. Ela estava tranquila, jogou-se cuidadosamente sobre o tronco grande e velho da árvore e perdeu-se nos movimentos da copa. Piscou sonolenta e adormeceu, igual ao gato gris.
Por muitos meses seus olhos não abriram, enquanto o subconsciente cuidava dos sonhos. Aqui era dona Susana brigando com dona Amélia por causa do marido bêbado, por lá era seu Manuel apagando o fogo de uma casa feito um herói, mais adiante um prédio de vidro e no topo dele o controle da lua cheia e do brilho das estrelas. Piscou sonolentamente até acordar de fato, no meio do verão e com as costas molhadas de suor e a testa ardendo de febre. Levantou-se de sobressalto e as pernas vacilaram com a tontura, que passou com a rajada de vento muito frio que assobiou por seus ouvidos. Oito passos em frente, ela percebeu três marcas no chão, feitas por três diferentes nascentes de água limpa.

A primeira marca já tinha o fundo bastante ressecado e por ele um exército de formigas passava rapidamente, carregando frutas pequenas. Apesar de a água já ter se esvaído, o caminho que ela deixou estava marcado, e agora servia de guia. A menina seguiu até o fim do rastro, que terminava a poucos passos de onde ela estava deitada, e encontrou um papel velho que não tinha enxergado antes, desbotado de azul.
"A água desceu furiosa enquanto sonhavas, menina, mas ela secou rápido, e só permitiu o desfrute de outros seres quando já tinha secado. O que ela deixou pra trás ainda servirá pra outros, mas não pra ti. Ela só marcou o caminho, e molhou somente as pontas dos teus dedos dos pés e somente quando tu te esticavas pra alcançá-la".

Na segunda marca a água ainda corria, brotando aos poucos da terra, e até já formava uma poça a uma distância de um passo de onde ela estava deitada, passarinhos divertiam-se respingando água para os lados. A menina outra vez não tinha notado esse detalhe na paisagem, e na beiradinha da poça, enxergou outro papel, esse mais novo, desbotado de verde.
"A poça de água molhou a ponta de teu vestido, menina, ela chegou até pouco acima de teu joelho. Quando a nascente jorrou a água com mais pressão e ela encostou em tuas panturrilhas, tu tivestes pesadelos e devaneios com abandono e solidão. É bom que tenhas cuidado ao tomar essa água, apesar de ela parecer muito boa para os passarinhos; mas te lembres: quando chegar o inverno, eles irão embora".

Da fonte da terceira marca a água corria constante e cristalina, pelas beiradas pequenas flores amarelas nasciam e atraíam insetos coloridos, e seu fim não existia. A água fez um caminho que contornou o corpo da menina enquanto ela dormia deitada na árvore, e desceu pela terra até encontrar um rio maior. Seguindo com os olhos, o rio desaguava no mar um tanto distante, além das outras casas do povoado onde ela morava e dos pequenos montes cobertos de árvores carregadas de frutas. Ela acompanhou o curso da água e quase na praia encontrou uma placa de madeira, muito conservada e brilhante de verniz.
"Essa terceira nascente, bondosa, paciente e carinhosamente correu ao teu redor, molhou as pontas dos teus pés, passou rente a tua cintura e as tuas costelas, escorreu entre alguns fios de cabelos teus, saciou a sede da árvore e encontrou-se com o rio, pra encontrar-se com o mar, e tornar-se algo maior. Ela sempre existirá, porque é assim que tem que ser, ela tornou-se parte de teu mundo e te felicitou enquanto ainda sonhavas, e te felicitas agora que estás acordada. Afogue-se nela, menina".

Ela atirou-se ao rio, sem piscar. Porque se piscasse, sonolenta, adormeceria.

28.1.12

Reverberando

A lua da Tarsila vai iluminar meus passos meio tortos
refletirá no mar fazendo uma trilha pequena até um barco
enquanto a bailarina ao meu lado também caminha e me conta sobre seus dias,
sobre brincar de ser mulher, enquanto grampos de cabelo - aqueles de avó -
caem de sua bolsa e são esquecidos pela rua escura

Talvez a grama se enrosque em meus pés e faça cócegas
e pra cima da minha perna suba uma planta cheia de flores que logo murcham

Nós chegaremos ao portão que procurávamos
e lá dentro coisas diferentes se revelarão para nós, como em um tarô
no qual as cartas de Copas talvez não façam tanto sentido

A bailarina cantará em uma oitava linda e as pessoas ficarão encantadas
(esse jeito muito bruxólico dela,
ela que guarda em seus olhos mil feitiços sussurrados)
e dançará pelo cimento sem se sentir muito segura, pois seus ossos parecem tão fracos
e então seu pé quebrará

Ela, desolada, correrá mancando até a rua
sua maquiagem ficará toda borrada, porque ela chora e porque ela sente muito
E eu estarei ali até que tudo fique bem, ajeitando seus cabelos lisos
para as próximas apresentações difíceis de sua vida às vezes cinza

Quando as Três Marias estiverem quase alcançando o mar
eu conversarei sobre estrelas e africanidades com um menininho
que pensa que descobre as coisas de um jeito fácil
Mas eu sou um tanto complicada, menininho,
eu seguro a bailarina e meu gato e meu mundo no colo, sem vacilar
e apesar do joelho machucado
e eu não me machuco assim tão fácil, porque já vivi isso antes

E tu sabes, menininho com cheiro de chá,
existem vidas mais difíceis que a sua
mas eu estarei por aqui pra rir de ti e sentir frio.

16.1.12

Delirium

-Céu! gritou, rasgando a garganta. E correu pros braços desse seu deus-amor tão lindo, esses seus braços de nuvens, aconchegando-se junto às suas filhas estrelas e aos seus mistérios. Mergulhou nesse azul-roxo-preto da Nix pra dormir e então acordar em um vermelho-laranja-amarelo de Lux, do Sol que é calor e círculo. -E mar! gemeu e suspirou, pela água por todos os lados, de um lar salgado, os ponteiros dos relógios enlouqueceriam tentando contar o tempo que poderia ficar ali.
A lua nova deu colo e fez ninar, cantando, e os sonhos dessa outra noite foram bons. E apesar do vocabulário reduzido, sussurrou entre os ventos que assobiaram nas orelhas que não iria mais dividir seu mundo com ninguém, só queria sentir o que sente com seus deuses, viver em seus braços, no colo, acariciar o ventre que abriga seu filho Entheos*, adormecendo, sonhando, acordando, correndo sobre o verde.
E fim.





*Entusiasmo vem da palavra grega "entheos", en+theos, ou seja, "ter os deuses dentro".

8.1.12

Vozes cantam palavras que eu não ouço
e a chuva rápida de hoje me fez ir pra baixo do telhado de uma senzala
com bonecos vestidos de pijamas listrados
e seus crachás mostrando o quanto eles são habilidosos com batatas-fritas.
Eu comemorei, ri e chorei
e voltei cá pra baixo de meu teto branco
sem procurar por ninguém pelas ruas, porque eu não precisava de ninguém.

Eu não preciso. E eu conheço essa sensação.
Já abandonei tantos. Eu me cansei.

E você me abandonou porque eu fui um monstro sem nem ao menos ter noção disso.
Eu me movimentei demais? Eu machuquei você por dentro?
Eu roubei muito da sua juventude? Era pr'eu ser sua boneca?
Eu sinto tanto e sinto muito...
Mas você não fez nada pra que eu esteja escrevendo agora
regurgitando o mal que não deixo existir em mim
e você não me alimenta mais.

Sem pijamas pra mim, sem listras
e sem lágrimas, porque eu me cansei disso também.
Eu já comprei um sundae de morango e me queimei no sol
e isso tudo é só mais outra bagunça que eu faço.

'Cause I know I'm a mess
and no one wanna clean up.

3.1.12

Alguns segredos

Passeando pelas pontes e praças daqui eu ouvi uma história uma vez sobre uma garotinha cujos cabelos imitavam perfeitamente o movimento do lamber do vento nas folhas das árvores de uma plantação imensa de laranjeiras. Suas mãos permaneciam geladas pra temperar seguindo os ensinamentos de sua avó, e de acordo com os sentimentos. Eu ouvi sobre os céus estrelados que a encantavam e ela se perdia no tempo-espaço deitada na sacada, jogada sobre almofadas com cheiro de canela e funcho. E na casa com um poste laranja, depois da igreja velha, vivia um garoto que a encantava tanto quanto as estrelas e apenas por lembrar-se dele ela sorria. E o sorriso dele a matava. Talvez eu a tenha visto por aí.

A garotinha possuía um mundo dentro de si e mil amores pra viver, todos sempre errados e fora de hora. (Você não sente medo ou angústia de não existir a chance de conseguir viver e sentir uma potencial felicidade?). Depois do dia chuvoso, depois da melodia da música da noite, depois do quarto azul, ela sentiu solidão e chorou. O garotinho do sorriso partiu em alguma das madrugadas da semana seguinte levando o violão consigo. E o sorriso dele aparece de vez em quando nas noites bonitas. E ele é o gato da Alice e deixa a garotinha feliz por ainda sorrir entre as estrelas amarelas, mesmo que raramente. Ela ainda sente que sente amor e sabe que sente saudade.