12.6.10

Adeus, infância

O cheiro de sangue entrava por minhas narinas e deixava-me enjoada. Nunca estive tão perto da sensação de morte quanto agora. Enquanto os enfermeiros da ambulância colocavam os corpos dentro do automóvel, as últimas três horas passavam como um flashback em minha cabeça.
Era madrugada e eu, como de costume, estava deitada na sacada de meu quarto, olhando as estrelas. Um raio de luz tirou-me de meus devaneios, eram os faróis de algum carro que vinha pela rua. Parou defronte a minha casa e buzinou duas vezes. Do fim da rua – que é sem saída – veio um vulto branco, e do carro saíram algumas pessoas que riam, um pouco embriagadas. O grupo calou-se quando o vulto branco chegou: era uma mulher, alta, cabelos curtos e ruivos que lhe caíam sobre os olhos. Balbuciou alguma coisa que não entendi, e prontamente abriram o porta-malas. De lá, saíram duas crianças abraçadas com ursinhos esfarrapados. Tão logo saíram, levaram, cada uma, um corte profundo em cada braço e, antes mesmo de chorarem, levaram um tiro que despedaçou-lhes os miolos.
O grupo entrou no carro e foi embora sem fazer barulho. O vulto branco ficou parado na rua até que o carro virasse a esquina. Tive a impressão de que os olhos dela dirigiram-se a mim, de revesgueio, e senti meu corpo gelar. Ela seguiu ao fim da rua e sumiu. Chamei a polícia, e agora estou aqui depondo. Vejo os ursinhos das crianças mergulhados em sangue e pedaços de cérebro e ossos. Sinto-me infinitamente mal por não poder ter feito nada.
Antes de descer até aqui, deitei-me por mais alguns instantes na sacada, e olhei as estrelas. Elas brilhavam vermelho, refletindo o crime, a morte, a falta de compaixão... O sangue espalhado pelo ar.