16.5.13

Otsoa*

Existe um povoado bem além daqueles morros enormes. As casas são feitas nos troncos das árvores e as pessoas se estendem nas raízes gigantes na hora da sesta, roncando e sonhando com a enchente e os animais marinhos. São polvos e lulas e ouriços e peixes e baleias nadando por entre as árvores cobertas de água.


Tem um lobo que mora em cima do morro mais alto da região - que é também o mais alto do mundo. Ele vive lá há séculos, preso numa caverna, e ninguém sabe explicar direito de onde ele veio ou de que forma foi parar por lá. Tem gente que diz que foi da vez que o mundo inteiro alagou, a mesma vez que povoa os sonhos de todos, e nessa ocasião o lobo nadou durante meses... e foi parar pra cima do morro. Tem gente que diz que ele era homem moço, e dedicava amor pra uma mulher moça que só o amava de volta em noites de lua cheia e só debaixo das flores brancas venenosamente perfumadas, até que uma noite ele adormeceu sufocado e acordou virado lobo, em cima do morro.
 Quando faz calor o lobo rosna, fazendo os telhados gemerem de medo, e as pessoas suam com seu bafo quente, e o suor tem cheiro de flor branca. Quando faz frio o lobo uiva, assovia desvairado, e enlouquece as pessoas do povoado que amam as outras em silêncio, enchendo de som os ouvidos e os cérebros delas, porque sentem o amor pra dentro.


Quando nasceu a segunda filha daquela que teria vindo quarenta gerações após a mulher moça que todos diziam ser o amor do lobo, ele atirou-se do morro. Andou dificultosamente por entre a neve do inverno durante um mês; chegou aos campos de milho durante a primavera e alcançou a mata no verão.

 
Encontraram-no lambendo os pés da menininha e o mataram.




A menina cresceu, entrou no mar e virou sereia.
E o mundo alagou-se das lágrimas da mãe dela.









*Basco, significa "lobo".