25.2.13

Sobre uma rainha e sobre uma pedra preciosa

Na última noite eu escorri feito lágrima pra dentro dos lençóis de cores da minha cama. O dia passou rápido e me acelerou junto com ele, fazendo meu coração pulsar demais. Entontecida, me enrosquei nos lençóis e nos sonhos, nas lembranças e nos delírios que me sorriram enquanto uma lua quase cheia jorrava luz nas paredes do quarto.


E no sonho eu era uma menina com cabelos trançados, amarrados no fim com um rabicó improvisado feito de cadarços de tênis, dançando e correndo debaixo da chuva, me sentindo tão imensamente feliz e liberta que eu sabia que teria essa lembrança pra sempre, e sendo observada pela janela da cozinha pela vó Maria, que sorria e achava muita graça nisso tudo.
E inesperadamente eu me via num sábado de manhã de 2001, típica manhã em que ia com meus irmãos e meu pai até o centro pra comprar revistas e tomar um sorvete, fazer uma visita rápida aos tios que trabalham até hoje com os negócios da família, e ver a vó descendo a entrada da garagem, vindo me abraçar e escutar um felicíssimo "Buon giorno, nonna", retribuído com um dos sorrisos mais cheios de alegria que eu já recebi dela.
E logo mais eu estava entre os primos, 11/04/98, finalizando a festa de aniversário da vó com uma bagunça imensa no jardim, água pra todos os lados, barro e risos infinitos; ou talvez no aniversário do vô Rubi, se reunindo e sorrindo pra foto que eu olho todos os dias - e dessa forma eu não me esqueço de me lembrar de todos eles. Pisco e acordo deitada em uma cama de hospital, cercada de outras doentes, e a vó segurava a minha mão e me olhava, e dizia que "logo, logo tudo fica bem, Tainah".
Desmaio e acordo dentro do carro do vô, cantando a plenos pulmões as músicas de Leandro e Leonardo com os primos, no rodízio de todo fim da tarde, que ele colocava todo mundo pra dentro do monza verde e levava cada um até a sua casa, não se esquecendo de passar naquele morro gigante pra cima da santinha, pra gente fingir que era a melhor montanha-russa já construída em toda a Terra e sentir aquele frio na barriga indescritível.
Outra piscada, e eu estou sentada aos pés do vô e da vó, entre as cadeiras de balanço, contando as histórias da bruxa Salomé, enquanto lá fora chovia e a praia de Piçarras ficava deserta. E eu também me vejo em cima das jabuticabeiras, o vô embaixo com uma cestinha recolhendo todas as que eu jogava, pra depois a vó fazer geleia.
No inverno, eu sentava na frente da televisão toda enrolada num dos cobertores coloridos de lã, mal abria o piano, e rapidamente vinha a vó com um prato cheio de bolachas e uma cumbuca completa de pinhão. Quando anoitecia, a gente sentava ao redor da mesa redonda grande da primeira sala, pra comer a sopa de agnoline da vó, a melhor sopa do mundo e a mais famosa entre todos os meus amigos. No verão a gente senta nos bancos branquinhos do jardim e escuta os mais novos contarem piadas. E quando eu vou pra lá, a gente faz polenta, todos juntos.
Eu tonteio, desmaio e acordo sorrindo debaixo de uma lua cheia, e à minha esquerda a vó dá muita risada e mexe no cabelo todo cheio de rabicós e presilhas que eu e a Isa colocamos. E quando eu ficar doente, a vó vai vir com um potinho de própolis e um chá de neném, com as ervas doces colhidas do quintal.


Depois disso, era eu tocando piano pra vó, com o maior amor do mundo; depois de sair do banho longo na banheira que não existe mais, pisava no tapete com pezinhos desenhados e a vó me pegava no colo e me colocava pra dentro da toalha de toquinha, escovava os meus cabelos que quase sempre tive longos e fazia uma trança.


Eu passaria a minha vida recebendo o carinho das mãos da vó, mãos que reviram a terra e que plantam as rosas mais lindas da cidade, tomando seus chás de funcho. E eu passaria a minha vida entre os gibis do vô e seus horários trocados pra poder acompanhar todos os jogos de vôlei e futebol, e pra conversar sobre o meu time de basquete e sobre as coisas da vida.



Na última noite eu escorri feito lágrima pra dentro dos lençóis de cores da minha cama.
E nos sonhos a vó Maria e o vô Rubi vivem pra sempre.





Janela, janelinha
Porta, campainha
Trim! ♥

14.2.13

Tormenta

Vindo do céu, um aguaceiro resolveu inundar a casa
Molhou os lençóis da cama e resolveu que ali se formaria uma lagoa
de água morna
Desceu as escadas e foi-se através da porta, levando consigo roupas e sapatos
espalhando-os por todos os lados
Encontrou-me sentada nos tijolinhos da calçada do outro lado da rua
desenhando na areia um monte de furacões
tipo aqueles que eu sempre encontro ou faço ao longo do meu passeio por essa existência

"Não fale nada. Agora te conto um segredo e ele talvez te faça morrer um pouco..."

E essa chuva toda resolveu que seria divertido testar todo o seu alcance
Encharcou-me completamente e riu da minha cara
e a única coisa possível d'eu fazer foi esperar pacientemente toda essa vontade acabar
e fitar a pessoa que me olhava da janela retangular da casa
e que segurava um guarda-chuva que seria entregue a mim
mas não foi

"Talvez porque tu sabes que toda essa vida faz de ti uma louca..."

Quase instantaneamente, o Céu parou de chorar
pra abrir suas pernas de nuvens
e deixar aparecer o Sol enorme e um manto azulado

"Há uma tonelada de amor dentro desse coração, eu diria..."

Caos, sempre enroscado em meus cabelos
mordeu minha orelha e sussurrou
que se fosse possível ele sequestrava a minha alma



"Ainda assim, eu te peço que, por favor, 
Mate esse amor aos poucos
Não demonstre
Não me ame, não me ame, não me ame... 



Porque se isso acontecer
eu te abandono".