13.3.18

metapoema

"E só faço escrever, desde pequena. Adoro inventar uma escrita. Um dia na escola, com meus sete ou oito anos, a professora passou um exercício. Era o de dividir as palavras em sílabas e a partir daí formar novas palavras. Eu já estava de saco cheio. Para desconsertar a moça, pedi para ir ao quadro escrever as que eu tinha formado. E escrevi pó, zoeira, maconha. E fui escrevendo mais e mais. Craque, tiro, comando leste, oeste, norte, sul, vermelho e verde também. Na verdade, naquele momento, eu já estava arrependida e queria voltar para o meu lugar. Se é que tenho algum. Mas escrever funciona para mim como uma febre incontrolável, que arde, arde, arde... A professora olhava querendo ser natural, a turma ria e eu escrevia. Gosto de escrever palavras inteiras, cortadas, compostas, frases, não frases. Gosto de ver as palavras plenas de sentido ou carregadas de vazio dependuradas no varal da linha. Palavras caídas, apanhadas, surgidas, inventadas na corda bamba da vida."
(trecho de "A gente combinamos de não morrer", do livro "Olhos d'água", escrito por Conceição Evaristo )

-

primeiro, vem o choro
ele sempre vem, e precisa vir
escorre tempestuoso
adentra cada raiz
é a lágrima a chave da armadura
várias lágrimas juntas, a armadura estoura com barulho no vácuo
ninguém mais escuta

por dentro
inicia-se
um recital
escolho palavras com dedos de pinças
molhadas de lágrimas
sem ferrugem apesar de tanto tempo de poemas

o choro vem primeiro
escorrem águas e palavras

-
segundo, vem o sangue
depois de sorver toda água
não há deserto nem seca
é o sangue que escorre
os dedos rasgam-se em poemas, sangram sentimentos
essa é a hora que me entrego
é a vez de sangrar
quando abro veias e artérias por sobre um poema
quando flui sangue pelas coisas que faço
coração bombando
represa estraçalhada
é a hora da entrega
se me vê aos prantos e sangrando em palavras
tinta vermelha, tinta preta, tinta roxa
então me enxerga

me custa demasiado falar sobre muito do que sinto
escrever sempre funcionou
mesmo sabendo que tem quem escute melhor
essa é a hora da encruzilhada
ou quem escuta apanha as palavras e as lê e me enxerga
ou eu recito os poemas de dentro
num sarau
a água das palavras volta aos olhos ao serem ditas
é por isso que choro ao falar sobre qualquer sentimento que me habita

-
(às vezes, vem o fogo
que pode ser vela a iluminar um canto do quarto
que pode ser incêndio em todos os cômodos
a espalhar-se pelas vizinhanças
essa é a hora da audácia
de lamber peles, tirar roupas, arranhar lençóis e colchões
os rasgos continuam
sobram brasas no chão, nas calçadas
cheiro de água, de sangue, de fogo e saliva
tinta escorrendo dos dedos)
-

sempre vem o amor
combustível vital
está na água,
no sangue
no fogo
e em tudo mais
que (me) explode e transborda

-
teço acolchoados da vida
costuro combinações de fios
fúria, raiva, medo, angústia, tristeza, abandono
alegria, excitação, amor, serenidade, fogos de artifício
escambando sentimentos
por carinhos,
água, sangue e palavras


rasgos nas costelas
poemas voam soltos pelo quarto, pela casa, pelas ruas
ser solta assim é parte do que sou

voando
pelo quarto, pela casa,
pelo sótão
pelas ruas
pousando nas flores
nos abraços das pessoas
nas ondas do mar


eu sou
poemas inteiros
de água, sangue, fogo, amor, palavras
intensidade
estradas, mergulhos, livros, dores, músicas, rebeldia, sonhos
cafés, estrelas, vinhos, liberdade, risadas, histórias, tempestades, desenhos
cores, bilhetes, manguezais, paciência, latinoamérica, empatia
rasgos
poemas



eu sou

poemas

inteiros

de água, sangue, fogo, amor, palavras




26.9.17

areia seca nas estradas
na curva dos ventos
na ponta dos dedos

o sol explodindo o vidro das janelas
tostando o asfalto
queimando a pele



mas tem uma chuva
encharcando meu quintal
faz meses
e seu esforço e poder em me alcançar
quase constitui outra poesia
de nuvem, água, vento e raios



a chuva escorre sob os meus pés descalços
às vezes goteja na minha cama
brota no meu olho e encharca o beijo

não é justa
nem saudável
nem benéfica

é roxa feito um hematoma
daqueles que surgem no peito
quando o coração bate rancoroso

mancha as minhas cores todas
infiltra pela casa que sou
às vezes 
me afoga








e à noite eu rezo num sussurro
que amanhã meu amor me ajude a segurar o guarda-chuva mais uma vez
que essa tormenta uma hora encerre
que o vento que assovia na rua da praia
assovie dentro das nuvens da chuva roxa
deixe tudo mais leve


dissipe-as

29.5.17

mergulho num lençol de nuvens
tenho um céu na cabeça
e pó de estrela enroscado nos cabelos







nos sonhos eu ando sempre só

5.1.17

suspiros

ontem eu vi o dia virar noite
na revirada do tempo num vento quente
que trouxe nuvens e raios
e um céu mordido
azul-marinho

anteontem um poste explodiu bem em cima de mim
outra vez
eu vi o poste piscando metros antes 
sem entender
e ele explodiu bem em cima de mim 
outro poste
outra vez
a rua ficou completamente escura
e só tinha eu e a rua ali, e o céu, e um vento quente
outra vez
e ali da rua eu pude ver milhões de estrelas
em um céu mordido
azul-marinho



sonhei contigo essa noite
tu elogiava a minha roupa
eu tava usando um dos casacos que separei antes do Natal e pensei em te dar

sinto saudade o tempo todo
mas a melancolia da saudade me deixa menos triste
do que a agonia que eu sentia anteriormente
já que posso escolher
e apesar do peso que minha própria decisão me dá
revisito nossos momentos que guardei em memória
com amor 


pra quê rimar amor e dor?



profetizo nos desejos mais sinceros
o reencontro dos caminhos
quando tudo for mais leve, mais simples, mais solto
pro agora eu deixo minha distância e meu silêncio
já que posso escolher
apesar de todo peso que minha própria decisão me dá
porque se eu soubesse
como machuca
não amaria mais ninguém







mas pra quê rimar amor e dor?