26.9.17

areia seca nas estradas
na curva dos ventos
na ponta dos dedos

o sol explodindo o vidro das janelas
tostando o asfalto
queimando a pele



mas tem uma chuva
encharcando meu quintal
faz meses
e seu esforço e poder em me alcançar
quase constitui outra poesia
de nuvem, água, vento e raios



a chuva escorre sob os meus pés descalços
às vezes goteja na minha cama
brota no meu olho e encharca o beijo

não é justa
nem saudável
nem benéfica

é roxa feito um hematoma
daqueles que surgem no peito
quando o coração bate rancoroso

mancha as minhas cores todas
infiltra pela casa que sou
às vezes 
me afoga








e à noite eu rezo num sussurro
que amanhã meu amor me ajude a segurar o guarda-chuva mais uma vez
que essa tormenta uma hora encerre
que o vento que assovia na rua da praia
assovie dentro das nuvens da chuva roxa
deixe tudo mais leve


dissipe-as

29.5.17

mergulho num lençol de nuvens
tenho um céu na cabeça
e pó de estrela enroscado nos cabelos







nos sonhos eu ando sempre só

5.1.17

suspiros

ontem eu vi o dia virar noite
na revirada do tempo num vento quente
que trouxe nuvens e raios
e um céu mordido
azul-marinho

anteontem um poste explodiu bem em cima de mim
outra vez
eu vi o poste piscando metros antes 
sem entender
e ele explodiu bem em cima de mim 
outro poste
outra vez
a rua ficou completamente escura
e só tinha eu e a rua ali, e o céu, e um vento quente
outra vez
e ali da rua eu pude ver milhões de estrelas
em um céu mordido
azul-marinho



sonhei contigo essa noite
tu elogiava a minha roupa
eu tava usando um dos casacos que separei antes do Natal e pensei em te dar

sinto saudade o tempo todo
mas a melancolia da saudade me deixa menos triste
do que a agonia que eu sentia anteriormente
já que posso escolher
e apesar do peso que minha própria decisão me dá
revisito nossos momentos que guardei em memória
com amor 


pra quê rimar amor e dor?



profetizo nos desejos mais sinceros
o reencontro dos caminhos
quando tudo for mais leve, mais simples, mais solto
pro agora eu deixo minha distância e meu silêncio
já que posso escolher
apesar de todo peso que minha própria decisão me dá
porque se eu soubesse
como machuca
não amaria mais ninguém







mas pra quê rimar amor e dor?

29.11.16

tem dia que nasce cinza
e, às vezes, nesse fluir da vida que acontece
o que acontece aqui dentro parece que reflete aqui fora
e o cinza do dia nascido
a gente pensa que é pra acompanhar
o cinza da gente


escrevo. e pronto.
escrevo porque preciso
escrevo porque estou tonta.*


hoje eu acordei e ao abrir a janela
sem bater a cara no vidro
eu assisti e contei, melancólica,
a pelo menos cinco coisas caindo
que sequer tive a chance de segurar
(ou será que só não quis?)


um avião
uma nuvem em forma de concha
uma chuva com cheiro de hortelã e menta
dois arco-íris trançados no céu


o avião caiu rasgando os arco-íris
molhado e embalado na chuva
a nuvem desfez-se em minha mão
eu tentei mordê-la, aflita
sentindo o avião rasgar coisas em mim também

em mim
o avião caiu rasgando os arco-íris
molhado e embalado na chuva, já sem cheiro
a nuvem de concha transformou-se em onda
durante um daqueles sopros bonitos de um vento de primavera
e eu senti seu gosto de mar na boca

juntando o que caiu espalhado no chão
a onda envolveu tudo em água e sal
embalou até o céu
e fez desabar na minha cama


eu só queria a sorte de um sono tranquilo






Quando o poema me anoitece
a aranha tece teias
(* "Razão de ser", Paulo Leminski)