16.2.19

acolhida de Nix

o conforto da noite me chamou em seu colo
aconcheguei-me a escutar seus sussurros
histórias de lunas e sonhos

o vento embalou
sua música e eu

ali, deitada no colo da noite
entrelacei meus dedos à melodia que me enlaçava
e assim descansada igual barco no porto
deixei meus olhos transbordarem o mar

a noite reza minhas dores
acolhida em seu colo, teço meus infiniversos
nos arredores, um céu roxo de nuvens se encharca de chuva quente e salgada
a tempestade dilacera os caminhos e as casas
- sob a chuva, em breve, a humanidade terá que traçar novos mapas -

assim permaneço por longos momentos
carícias noturnas enroscam os cabelos
milágrimas escorrem as tristezas sentidas

o vento embalou
sua música
meu choro
a reza da noite
e eu





cheguei até o colo da noite
aqui permaneço até a chuva cessar
e daqui regresso andando pelos novos caminhos








{A deusa grega Nix é deusa da noite profunda; é filha de Caos e gêmea de Érebo, deus da escuridão}

21.11.18

eu-só

muitíssimas palavras me habitam
meses
dias
horas
gotejam do coração
espalham-se dançantes adentro

no meio do caminho entre o antes e o agora eu fui despedaçada
várias vezes
quem não é?

palavras me habitam e as deixo aqui adentro
me entendem
me entendem
me entendem
de um jeito tal que não há mais quem consiga

afora as tantas outras composições e melodias
também sou feita de palavra
poema inteirinho
quem me lê me sente de infinitas maneiras
mas quem entende minhas palavras 
completamente
especialmente as que surgem aos estilhaços
sou eu-só

pois sou eu-só quem me sinto
eu-só quem me vivo
eu-só quem me amo assim sem pudor sem culpa sem julgamento sem raiva sem peso

e mais:
me amo do melhor jeito que eu posso querer ser amada
revoluciono meu amor por mim para que eu me transborde a partir dele
e me abraço e me prometo e me repito
faça algo bom por ti mesma esta noite
faça algo bom por ti mesma este dia
faça algo bom por ti mesma


quem tá lá na linha do fim sou eu
mesmo que no caminho entre os antes e os agoras eu seja despedaçada
é meu amor que me salva
então eu quero fazer algo bom por mim mesma a todo instante


13.3.18

metapoema

"E só faço escrever, desde pequena. Adoro inventar uma escrita. Um dia na escola, com meus sete ou oito anos, a professora passou um exercício. Era o de dividir as palavras em sílabas e a partir daí formar novas palavras. Eu já estava de saco cheio. Para desconsertar a moça, pedi para ir ao quadro escrever as que eu tinha formado. E escrevi pó, zoeira, maconha. E fui escrevendo mais e mais. Craque, tiro, comando leste, oeste, norte, sul, vermelho e verde também. Na verdade, naquele momento, eu já estava arrependida e queria voltar para o meu lugar. Se é que tenho algum. Mas escrever funciona para mim como uma febre incontrolável, que arde, arde, arde... A professora olhava querendo ser natural, a turma ria e eu escrevia. Gosto de escrever palavras inteiras, cortadas, compostas, frases, não frases. Gosto de ver as palavras plenas de sentido ou carregadas de vazio dependuradas no varal da linha. Palavras caídas, apanhadas, surgidas, inventadas na corda bamba da vida."
(trecho de "A gente combinamos de não morrer", do livro "Olhos d'água", escrito por Conceição Evaristo )

-

primeiro, vem o choro
ele sempre vem, e precisa vir
escorre tempestuoso
adentra cada raiz
é a lágrima a chave da armadura
várias lágrimas juntas, a armadura estoura com barulho no vácuo
ninguém mais escuta

por dentro
inicia-se
um recital
escolho palavras com dedos de pinças
molhadas de lágrimas
sem ferrugem apesar de tanto tempo de poemas

o choro vem primeiro
escorrem águas e palavras

-
segundo, vem o sangue
depois de sorver toda água
não há deserto nem seca
é o sangue que escorre
os dedos rasgam-se em poemas, sangram sentimentos
essa é a hora que me entrego
é a vez de sangrar
quando abro veias e artérias por sobre um poema
quando flui sangue pelas coisas que faço
coração bombando
represa estraçalhada
é a hora da entrega
se me vê aos prantos e sangrando em palavras
tinta vermelha, tinta preta, tinta roxa
então me enxerga

me custa demasiado falar sobre muito do que sinto
escrever sempre funcionou
mesmo sabendo que tem quem escute melhor
essa é a hora da encruzilhada
ou quem escuta apanha as palavras e as lê e me enxerga
ou eu recito os poemas de dentro
num sarau
a água das palavras volta aos olhos ao serem ditas
é por isso que choro ao falar sobre qualquer sentimento que me habita

-
(às vezes, vem o fogo
que pode ser vela a iluminar um canto do quarto
que pode ser incêndio em todos os cômodos
a espalhar-se pelas vizinhanças
essa é a hora da audácia
de lamber peles, tirar roupas, arranhar lençóis e colchões
os rasgos continuam
sobram brasas no chão, nas calçadas
cheiro de água, de sangue, de fogo e saliva
tinta escorrendo dos dedos)
-

sempre vem o amor
combustível vital
está na água,
no sangue
no fogo
e em tudo mais
que (me) explode e transborda

-
teço acolchoados da vida
costuro combinações de fios
fúria, raiva, medo, angústia, tristeza, abandono
alegria, excitação, amor, serenidade, fogos de artifício
escambando sentimentos
por carinhos,
água, sangue e palavras


rasgos nas costelas
poemas voam soltos pelo quarto, pela casa, pelas ruas
ser solta assim é parte do que sou

voando
pelo quarto, pela casa,
pelo sótão
pelas ruas
pousando nas flores
nos abraços das pessoas
nas ondas do mar


eu sou
poemas inteiros
de água, sangue, fogo, amor, palavras
intensidade
estradas, mergulhos, livros, dores, músicas, rebeldia, sonhos
cafés, estrelas, vinhos, liberdade, risadas, histórias, tempestades, desenhos
cores, bilhetes, manguezais, paciência, latinoamérica, empatia
rasgos
poemas



eu sou

poemas

inteiros

de água, sangue, fogo, amor, palavras




26.9.17

areia seca nas estradas
na curva dos ventos
na ponta dos dedos

o sol explodindo o vidro das janelas
tostando o asfalto
queimando a pele



mas tem uma chuva
encharcando meu quintal
faz meses
e seu esforço e poder em me alcançar
quase constitui outra poesia
de nuvem, água, vento e raios



a chuva escorre sob os meus pés descalços
às vezes goteja na minha cama
brota no meu olho e encharca o beijo

não é justa
nem saudável
nem benéfica

é roxa feito um hematoma
daqueles que surgem no peito
quando o coração bate rancoroso

mancha as minhas cores todas
infiltra pela casa que sou
às vezes 
me afoga








e à noite eu rezo num sussurro
que amanhã meu amor me ajude a segurar o guarda-chuva mais uma vez
que essa tormenta uma hora encerre
que o vento que assovia na rua da praia
assovie dentro das nuvens da chuva roxa
deixe tudo mais leve


dissipe-as