21.12.11

Já cheia de saudade

Uma vez você completou um jogo do Mario e eu chorei de alegria e emoção, porque eu me senti feliz. Além das paredes daqui de casa, algumas com fotos e desenhos colados com fita, uma azul, uma com cheiro de cigarro, eu escuto as suas músicas. E o brilho das luzes natalinas deixam a sua sombra engraçada na parede, e tudo é riso, e você dança.
Você é uma parte de mim. Eu não gosto das suas músicas, e você não gosta de minhas ordens. E todos dizem que somos muito parecidos...
Os fios que nos ligam são laços de sangue e cabos de videogame. E nossos tesouros eram carrinhos velhos e bonecos do Comandos em Ação. Eu me lembro da gente se empanturrando de comidas na casa das vós, de você sempre comigo, das brincadeiras, e tudo é riso. Aprendendo a dar fatality e a não ser fresca. Virando noites pra completar Mario World no nosso Super Nintendo roxo e cinza. E você fica sem graça quando eu lhe encho de abraços, e quando eu digo que lhe amo. E é verdade.
Eu me lembro de você falando enquanto dormia. Me lembro daquela vez que a sua cama quebrou e você fez um cartaz do "barco da Globo". Me lembro de você me ensinando a desenhar, da gente brigando muito, se batendo, e crescendo. Jogando ping-pong na mesa da sala, brincando com os dálmatas, com os gatos, dando cambalhotas nos sofás. Me lembro daquela vez que você me perseguiu pelo apartamento com a vassoura e quando tentou bater em mim, ela voou pela sacada. (xD)

Apaixonados por videogame, Dragon Ball, Pokémon, Harry Potter, chicletes e esportes. Você no campo e eu na quadra. Eu sou você. E nós somos pra sempre.

11.12.11

Distractio-passer-lazurd*

Durante a madrugada o Senhor Pássaro Azul saiu de sua casa e passeou. Sentou-se em um banco e cantou até amanhecer. "Tristeza, de novo?". Não. Foi um canto tranquilo, e até um pouco feliz. O Senhor Pássaro Azul virou o bico pros lados e enxergou uma Senhora Árvore, sua casca grossa contava histórias bonitas do tempo que já passou. E viu uma Senhora Sol, senhora pro mundo onde ele estava assim como era pros cherokees, Senhora Sol cheia de vida, de fogo, vermelha-sangue. Sangue tão poderoso quanto os tantos litros jorrados pelas terras dos astecas, pelo Sol que pra eles é deus, que deixa um rastro de sangue no céu toda vez que a Noite chega. Noite que vem cheia de Estrelas, inúmeras, pontos de luz, meninas cobertas de pele e penas luminosas.

E o Pássaro Azul sentado no banco.

Dona Senhora Árvore remexeu-se sonolenta e espreguiçou-se. "Por aqui as estações andam ao contrário; certo que me parece que estamos no Norte, mas tenho a impressão de que no Norte não existem pitangas. Mas se não estamos no Norte deveria estar tão quente, Senhor Pássaro, você sabe, não é? E se tudo isso de fato está acontecendo, onde estão minhas flores?".

E o Pássaro Azul sentado no banco olhando ao redor.

Pintaram flores e estrelas e morangos no muro. Flores pra Senhora Árvore, e estrelas pra Noite que vem muito escura, pro céu ao alcance das mãos, e morangos pra meu pai que caminha manco com suas botas de borracha e que aos domingos me chamava pra dar banho nos dois dálmatas que eram meus amores. E que escreve e distribui poemas pelas ruas das cidades. E que me cuida quando tenho febre - e eu as tenho tão frequentemente...

E o Pássaro Azul sentado no banco viu outra árvore ao seu lado.

Seis anos e um joelho esfolado, um band-aid laranja no cotovelo também machucado na queda da bicicleta, uma tarde quente de verão. Uma criança corria ao longo da praça até a pitangueira. "Mamãe não me deixou comprar picolé de tutti-frutti daquele velho que vive por aqui... mas eu ainda tenho as pitangas". E subiu o mais alto que pode, até um galho quebrar e ela cair. Outro joelho esfolado.

E o Senhor Pássaro Azul escutou a Pitangueira choramingando, esquálida, esquecida.

"Eu penso que a estação logo muda, Senhora Árvore. Pois veja você, hoje eu cantei mais do que o costumeiro, e aquela criança vem sorrindo correndo pra cá em câmera lenta. Você sabe, não é? A Pitangueira está sorrindo também, veja você. E há flores por todos os cantos... e lá vem a filha do poeta comendo morangos, tropeçando pelas ruas, Caos em seus cabelos".

E o Senhor Pássaro Azul sorriu.



(E eu ordenei um "pause" porque a vida anda difícil.
E eu pintei um quadro porque parecia que tinha cheiro de felicidade.
E na minha memória tão fraca, tudo isso ainda existe. E flui e se mistura.


Tem um pôr-do-sol na minha geladeira.)



*"Distração" (latim)-"Pássaro" (latim)-"Azul" (árabe)

5.12.11

Caleidoscópio monocolor

Um homem alto está pintando as paredes da casa d'outro lado da rua. Branco. Por quê branco? Dois ônibus azuis se cruzam diante de meus olhos e dentro deles existem mundos. Tanta vida cá fora ali dentro. Eu gosto de ônibus-mundos, são bons lugares pra ler enquanto o destino futuro não chega. Melhores são os livros.

Meu pai falou que vai dar tempestade hoje. Comprei um guarda-chuva amarelo pra fingir que ainda tenho sol. E tomara que as pipas não desistam de voar, apesar da água.

Aquela moça vizinha pendurou uma canga na janela. Quando chega a noite ela desmancha a cortina improvisada pra olhar pro céu, e assobia pra lua que nessa semana cresce. Mas hoje vai tempestuar e ela talvez não queira ver as lágrimas do céu. Silenciosos assobios. A casa que branqueia vai manchar, fluida. Talvez se chovesse colorido, talvez...

Na noite do último dia de Saturno pela janela o céu viu uma menina jogada por cima da cama, enrolada em um cobertor calorento. A menina clamava por alguém. E chorava e chorava tanto e tanto... Corações não resistiriam. O céu viu as lágrimas dela molharem o travesseiro e fazerem uma mancha de tristeza. Lágrimas de céu manchando a parede branca.

As nuvens estão explodindo de dor. Elas enxergaram um menino afogado em uma poça. A placa falava que a poça era de Felicidade.

20.11.11

Eusó

Eu desenhei uma pirata pra minha irmã hoje.
Depois deitei no sol e escutei Pink Floyd o resto do dia.
Vi desenhos pelas paredes porque fiquei encarando o sol.
E fingi tocar piano nas minhas costelas.

Notas ecoaram em meu ouvido.
Mas aqui dentro fez silêncio.
Estou em um dia oriental. E me sinto inútil e fraca.



Isso é só um desabafo cheio de sono.



Eu preciso voar.
A vontade de querer voar não me deixa em paz...

17.11.11

Cabelos de DNA

Antes de mais nada, deixarei muito claro:
foi amor desde o princípio.
O que eu senti e sinto é enorme,
e eu derramo o que sinto ao redor dela enquanto ela dorme,
enquanto ela sorri, enquanto brincamos de briga em cima da cama desarrumada.
E quando brigamos de verdade, o que me mata.
Mas eu derramo mesmo assim.

Rir de mim mesma e de meu desajeito com as coisas
é tão normal perto dela.
Me sou inteira pra ela. Ninguém me acessa tão fácil.
Piadas e piadas que me deixam sem ar
porque eu prefiro rir
a respirar.
Até ficar roxa, mas não de frio.

Outros anos e estávamos caminhando por outras ruas,
dividindo uniformes e planos
pequenos.
Menores do que nós, nós que éramos tão pequenas.
(Cuide de mim quando eu precisar.)

Depois daqui tudo tem sido céu e areia
e brigas e brigas e tantas brigas
me perco entre gritos e feridas que sangram por dentro.
Mas logo saram, só por um sorriso.
Eu gosto de te ter por aqui.

Aos poucos eu me desfaço mais um tanto
outro dia que se vai é menos um
e eu ainda te vejo no meu oeste.

Sol poente de fogo e choro, eu te preciso.
És linda e eu permaneço enxergando duas
absurdamente apaixonadas, protetoras, amigas

e

Irmãs.

12.11.11

E se eu escrevo sobre ir embora é porque estou vazia

Eu me fingindo em tranquilidade enquanto a porta do quarto abre, mas o peito ainda arfa demais e me entrega. "Saia daqui". Eu queria poder ter gritado isso, mas eu só pensei. Os dedos passearam pelo balcão e musicaram uma canção velha que eu sempre detestei - e essa pessoa que meu viu transbordar de loucura sabia disso.
"Acho que pra mim já é suficiente". Bafo de café frio saiu feito névoa da boca, um assopro de dias de inverno na primavera. E eu implodia me enrolando em um lençol de flores.
"Da sua espinha dorsal eu puxei com uma agulha um fio de alma, dourado de amor estúpido". E as minhas mãos estavam atadas à tua nuca. Eu desaprendi a dançar, tu vês? E a morte seria de fato mais suave, mas morrer é trágico, sem graça e sem sabor. E eu queria sal, açúcar, ácido, veneno e nuvens.
Da minha janela eu assisti a um show macabro de fogo. O sangue escorreu até a calçada e foi pro esgoto pelos bueiros, e os gritos agudos e graves melodiosos turbularam o ar. Eu precisava de um pouquinho de morte sem cheiro.
De noite eu vi a lua cheia dançando no céu e na parede ela fez sombras infantis. Um, dois, cinco monstros e um corvo. Eu me fingindo em interesse com o rosto esquentando em um conforto solitário. "Por pouco tempo, talvez"... "Talvez eu logo volto"... Meu corpo doía. "Talvez". Levantei e fui até a janela pra ver a pessoa atravessar o portão enferrujado. "Fim?"

7.11.11

-Sem título-

~ Uma pergunta, antes de qualquer coisa:
você olhou pra lua hoje? ~




Nasce a lua pra iluminar
o meu dia ao contrário
acordo e sonho com estrelas que explodem
enquanto Caos me acaricia gentilmente
porque ele sabe a bagunça que sou

Chego à rua que se faz casa
pra muitos alguéns
que do começo ao fim do dia
são tratados como nada
porque convém mais aumentar o volume dos fones
e ignorar seus apelos de compaixão,
de migalhas, de sono, de sonho

As estrelas ainda explodem no céu escuro
e eu desço a rua-lar aos tropeços
com Caos enroscado em meus cabelos
e com a voz cantarolando alguma melodia
E o rio que corre à minha direita
desemboca em um mar feito de lágrimas
choradas pelas nuvens agridoces de meu céu que queima
enquanto lentamente me deito e fecho os olhos
pra escutar o mundo que suspira e acaba.

2.11.11

Fugio*

Saí de casa carregada pelo vento doce
que mora comigo
e dorme a meu oeste:
nós precisávamos ensurdecer desesperadamente
diante dos gritos e das brigas
cheias de ódio, amor e desconfiança
que preenchiam nossos ouvidos e corpos e almas
há dias.
A harmonia sentou-se conosco
no banco colorido de uma praça cercada
e um outro vento, muito frio, vindo do sul
fez dançar nossos pensamentos
e soprou pra longe algumas preocupações.

Sem preocupações
pais e filhos brincavam, ocupando um espaço-tempo só deles
a areia quente sob os pés
e um céu azul sobre os cabelos.

Nós vivemos esse tempo de sol e lua
rodeadas de liberdades e prisões
livres das brigas
na praça cercada de ferros
lendo um livro sobre escravidão
enquanto uma menina voa no balanço,
uns meninos pedalam velozmente
em círculos
e um rei e um imperador escalam uma árvore até o galho mais alto.

E nossos eus flutuando, sensíveis,
serenos, delicados, ondulando
e aproveitando os ventos, o céu, o sol, a lua
por mais que liberdade seja utopia
e nossos corpos continuem sentados no banco
e nossos pés tocando o chão.


*"Fugir" vem do latim fugio

29.10.11

Externando

Se eu pudesse eu te faria sofrer com o que eu escrevo e penso, mas não consigo. Ainda não. Os teus olhos virariam cinza-infelicidade e eu esboçaria um sorriso falso e te abraçaria, porque entendo completamente o poder que as lágrimas têm de tirar o castanho dos olhos. Eu desejo te ver chorando desolado e sem calor, nada ao redor além de mim e minha cara de desprezo. Mas tudo isso seria mentira. Porque tudo isso não sou eu.

Prometi mais de uma vez parar de escrever sobre muros brancos e sofás, porque a minha implosão violenta e que me estoura as costelas me satisfaz. Eu desprezo o que sinto e odeio o que eu me deixei sentir por ti, porque aprendi a demonstrar. Eu sorrio do teu lado agora e me sinto uma idiota depois, sozinha e insegura. E aí a minha janela me acolhe e as estrelas discutem meu destino.



Minha irmã diz que isso pode não ser verdadeiro de fato.
E perceba que isso não é infelicidade.
Mas dessa vez eu quis abrir minhas veias e chorar em palavras de um jeito direto.

13.10.11

Outros tantos passarinhos

Bate as asas negras e desajeitadamente alcança o mais alto que o fôlego permite. Fôlego. As narinas já estão tão cheias de fumaça e de princípios de câncer, e a cabeça tão cheia de projetos arquitetônicos de ninho que não é lar.
E aí a TV anuncia a chuva que durará toda a semana, semana contada pelos giros da Terra. O bico dói porque permanece fechado, não deixa cantar, só quando o sol aparece - mas ele não aparece. "Se eu fosse um asteca, quantos eu já teria sacrificado?"
As nuvens cinzas pesadas e densas permanecem acima do topo dos prédios e o ninho começa a ser construído, com terra, com pedaços de folhas, com pedaços de grama que morreu afogada, com pedaços de si. As nuvens choram e os olhos também, porque seu ninho foi desfeito. Ninho que não é lar.
Esconde-se com sua tristeza nas ondas de um mar revolto e espera paciente pelo sol que uma hora volta, hora contada pelos giros dos ponteiros. E planeja mais ninhos que não são lares.
E quando a chuva dá uma trégua, ele constrói seu ninho. Ninho que não é lar, porque não há mais do que um, e lar é singular preenchido de plural. Então a chuva volta e o ninho não se desfaz, e é a minha vez de ficar triste, porque moro em um mundo, mundo que é meu lar, onde os pássaros aprenderam a construir ninhos de cimento.

10.10.11

Semsentimento, semsentir

As noites guardam em suas lufadas de vento quente os tantos planos que eu faço pra um tempo que nunca chega, e isso às vezes me é frustrante. Eu morro de amores que me sufocam e que precisam ser expulsos de mim, eu preciso esbofetear alguém com meus quereres violentos... mas Alguém não vive por perto. Eu não sei onde mora Alguém.

Maya, linda Maya, ela sempre me envolve e dança, me embala, faz das minhas confissões e lágrimas sem sabor uma rima pra canção de ninar pro Sonho que guarda os amores que eu não externo.
Porque eu não sei sentir.



Eu sinto muito... mas eu não sei sentir.

3.10.11

Eu sou louca

Escreverei um manual inteiro de algumas tantas páginas pra ti,
lições inteiras de como me entender e me amar.
(E me ame, por favor, porque eu preciso).

Enquanto tu me adivinhas, rindo do teu jeito imbecil
eu posso inventar as notas pra uma canção que ninguém mais conhece
só a gente
por mais que agora não queira as notas,
só queira os muros da tua casa que eu nunca mais vi
e o sofá velho que me acolheu quando eu fiquei cansada do mundo.
(Invadi a tua vida, a tua casa e me apossei do teu sofá velho).

Na manhã seguinte eu acordei com o cheiro de café,
com um bom dia sussurrado e um sorriso imbecil.
E aí tu deitou no meu colo pra eu te contar alguns fatos
como o de eu ter fugido de casa, ter sido assaltada,
ter encontrado uma moeda de 25 centavos na rua,
ter comprado um sanduíche pra um cara
que estava imensamente triste
porque foi expulso de casa.
(Mas não fui expulsa da tua casa, porque tu gostas de mim).



E eu tanto te quis e te quero que criei um cosmo
e é tudo muito complicado, porque eu gosto das coisas assim,
e porque pelo menos lá eu tenho a certeza de que existirá
enfim
"nós".

25.8.11

Leeba*

Os cabelos desciam-lhe graciosos pelas costas até o quadril; originalmente cacheados, agora eram lisos, escorridos, desgrenhados, mal-cuidados, sujeitados às intempéries da cidade grande cheia de prédios. As orelhas de tamanho médio, esteticamente perfeitas. As maçãs do rosto muito magras, nunca coradas. O nariz arrebitado e muito especializado em sentir o cheiro do primeiro grande amor da sua vida: bebida alcoolica contida em garrafas de vidro ou de plástico. Os olhos eram pequenos, pálpebras pesadas, dois círculos escuros desprovidos do poder de expressão, só brilhavam se refletiam os neons alucinógenos que iluminavam as fachadas das lojas, que nunca estavam de portas abertas pra ela; só os bares a acolhiam. Os bares e os homens.
Mas ela só amou duas vezes durante sua passagem pelo mundo, aliás. O álcool e um só homem.
Do homem teve dois filhos. Desde a primeira conversa veio a certeza de querer engravidar dele, já que ele pagou tão gentilmente qualquer pedaço de massa pingando azeite fétido e com a carne por dentro fria, dura e semicrua, mas que agradou o paladar pouco refinado. Do restaurante de estrada foram para uma casa qualquer e seis meses depois saía dela uma criança morta, que ela jogou na privada do barraco onde foram morar e deu a descarga.
O segundo filho a fez sofrer nove meses inteiros e ainda mais duas semanas. Ela quase morreu segurando o guri dentro do ventre, se fez inumana para tanto, mas tinha um propósito: "assim o cérebro dele ficará maior e ele será mais inteligente do que todas as crianças daqui e eu terei pelo menos um orgulho na vida". O sonho se desfez assim que o pequeno Einstein nasceu, deformado e sem as mãos.
Raivosa, matou-o. E fez do cérebro superdesenvolvido a janta da noite que sorria de escárnio, toda estrelada.



*Nome yidish, de origem germânica, significa "amada". Leeba também é usado em Israel, com origem hebraica, significando "coração".

1.8.11

Constate

Há uma mulher que mora no fim da rua
sua casa é desbotada e tem cheiro de camomila
Ninguém entra lá e quando a encontram junto ao portão
apenas perguntam, desviando o olhar,
(porque os mais velhos mandaram assim fazer)
"Olá, dona Louca, como está?"

E ela responde com um sorriso que diz
"Só estou querendo fazer sangrar de tristeza
o coração ansioso de quem espera
por alguém que não virá"

2.7.11

"Maya"

vem do hindu. Significa "ilusão".




Seja bem-vindo, Julho gélido.

26.6.11

My tears dry on their own

Faz sol ali através do vidro sujo da janela, mas alguém notou o quanto eu chovi? Escorre outra lágrima e eu seco e finjo outro sorriso e ensaio meu cada vez mais certo adeus ao céu azul.
As notas e letras se apresentam diante de mim como boas companhias desde que eu aprendi a ler partituras e palavras, no entanto isso muitas vezes talvez não signifique que eu só precise de papel.
Eu tenho planos e isso não me deixa melhor. Porque meu esforço em te manter bem não é reconhecido e ele é enorme, e nunca é planejado: é natural. Porque pater não sabe o quanto me mata ver tua feição mudar por causa de planos nossos desfeitos sem motivos. Porque eu ouço as portas fechando e estou sozinha outra vez, sentada em um sofá no canto da sala, e não é essa a solidão que me agrada. Porque eu sou tão insensível ao ponto de me desfazer em lágrimas ao perceber outra vez que não sou parte do teu mundo.
Choro sozinha, choro e chovo sempre sozinha. E seco as gotas agridoces que escorrem de meus olhos e finjo outro sorriso e ensaio meu cada vez mais certo adeus ao céu azul.


All I can ever be to you
Is a darkness that we knew
And this regret I got accustomed to...

15.6.11

Um pouquinho de vida

Noite passada eu e meu irmão caminhamos por umas ruas que foram abandonadas, muito escuras, a luz do poste apresentando os cantos cheiosvazios de tudo, palcos de artistas que ninguém quer aplaudir. Eu e ele muito juntos, andando bem devagar, conversando, ele fumando uns cigarros que supostamente são cheirosos, dando risada das minhas histórias de sábia demais - mas oh, ele sabe, ele sabe tão bem o quão tola que sou...
Assim seguimos tropeçando nas pedrinhas perdidas da rua, eu e ele sentindo falta das nossas plantações de morango atrás de casa, exalando um doce bafo de bebida de baunilha, eu sempre dando uns passos mais rápidos porque os passos dele sempre foram maiores que os meus.

6.6.11

Viciado

A fumaça do que te causa devaneio vem ondulando até meu rosto. Eu respiro, enojado - há quanto tempo estamos nessa sala? - e teus sonhos me alcançam. E eu aceito me inserir neles de bom grado, porque é melhor do que ficar aqui e te ver morrendo, sentado nesse sofá se decompondo.
(Não que o morte me seja má companhia. Me sinto até confortável quando o percebo ao meu redor, e sei que ele gosta de me fazer visitas.
Há muitas pessoas perto de nós. Que bar apertado. Que assuntos fúteis. Tem suor de bebida escorrendo nas paredes. Tua respiração está tão profunda, é quase um ensaio de valsa. Tuas mãos seguram firmes meus braços. Alguém abre a porta, o vento vem da garganta do inferno e cora nossas faces, meu cabelo cobre meus olhos mas eu ainda te enxergo. Teu sorriso me enfraquece e eu oscilo entre sonho e realidade. Sinestésico.

Eu te amo insanamente, tu não vês? Tu, dama que se mata. Que me leva junto. Que acorrenta meu peito ao teu e me sufoca, me ensurdece com teus sussurros melódicos. E somos muito românticos. Tua depressão é linda. Teus planos de abandono de tudo me encantam. E eu não me seguro nesse mundo palpável pra poder ficar contigo, e morrer de tristeza sorrindo.

16.5.11

Solombra - Cecília Meireles

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza.
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada, mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

“Agora és livre, se ainda recordas."

24.4.11

Desenfelicitando

Te fiz pássaro pra me acostumar com a ideia de que tuas asas, teus instintos e teus desejos tão egocêntricos te levariam pra longe de mim quando o frio chegasse.
Aprendi a ignorar a neve que caía pra fora da minha morada, e fui ensaiar na rua os passos das danças que te encantariam de novo quando tu voltasses.
Indiscutivelmente tão bonitas essas danças, te encantariam outra vez e te encheriam os ouvidos de música, a música que sai de mim enquanto sorrio.

Não tarda e vem o tempo quente me desenrolar do cobertor de lã que tricotei pra mim mas perfumei com o perfume teu, pra tê-lo junto a mim quando na verdade não o tinha.
A partir dos primeiros dias meio mornos mas quase completamente quentes eu já andava feliz pelas ruas agora sem neve, enganando a mim mesma e repetindo o tempo todo "Isso não será sazonal dessa vez".

Há algumas horas cheguei em casa e vi um recado teu preso à porta com um percevejo e uma pena de um pássaro qualquer: "Eu não quero mais tuas danças e tua música e teus encantos e eu não te quero mais."

7.4.11

Afinal

Um dia que nasceu cinza e envolveu o meu corpo
E os pensamentos, sempre povoados de claves,
notas, números, letras e você

Saí pra rua tropeçando no mendigo que dormia à porta
e ele me xingou
e mandou o cachorro manco dele arrancar meu estômago

O frio logo me cumprimentou e eu coloquei o casaco xadrez
que você esqueceu em cima do meu sofá

Encontrei a sua mãe e ela me mandou sumir da sua vida
eu a mandei ir procurar alguns caras, se embebedar e se divertir com eles

Fui até a beira do rio, escutei a sua bicicleta cantando, me virei,
encarei o vento que passava gélido, queimando minhas orelhas
Suas mãos quentes em minha cintura me fizeram derreter
E as aves ao redor cantaram, declamando o Apocalipse.

20.3.11

Meias brancas

Teus braços formaram um tecido ao meu redor, que caiu bem em meus ombros; tecido bonito, macio, parnasiano. O abraço foi rápido. O leito era pequeno mas tu te encaixaste nele de uma forma confortável e dormiu, ainda com o chiclete de hortelã na boca. O teu cabelo desarrumado, comprido e preto seguia as ondas do travesseiro que seguia as ondas dos teus sonhos. Eu te escutava falar enquanto dormias, contando peripécias, e a minha risada de volume controlado te deixava um pouco mais desperto.
Duas horas inteiras te olhei a dormir, preocupada com o calor, com a tua improvável doença, com a tua insanidade, pequeno irmão. E então o dia amanheceu e eu fui embora, e não voltei mais, não te vi nunca mais.


Não te consideres importante. É só porque tu pareces uma criança enquanto dorme.

3.3.11

Diariamente

Não tenho me mostrado inteira do jeito que sou.
Não tenho me expressado do jeito que gostaria.
Não tenho me cuidado direito e minha saúde anda falha.

Há algum tempo não escrevo a minha verdade.

Há algum tempo não mereço ser lida. Desculpe.

1.2.11

Invisível

Era um vulto magro no meio da escuridão da tempestade que caía sem parar desde a semana anterior. Ela sentia os pulmões se retorcerem de dor, a tosse frequente voltando - a pneumonia não foi tratada do jeito certo, ela sabia. A roupa começou a encharcar-se enquanto ela virava a curva, descia o morro, passava em frente à igreja velha. E a água fria confundiu-se com o corpo dela parado no meio da rua, os olhos fixos em qualquer coisa imperceptível à frente. De tão molhados os tecidos chegavam a pesar mais do que ela, que pendia para os lados conforme o vento soprava.
Os pingos gordos da chuva ricocheteavam em seu rosto, em suas costas, em seus braços nus e em suas pernas à mostra por causa da roupa curta de verão, e isso a machucava. O perfume dela era embalado pelo vento e entrava pelas grades dos portões e fechaduras das portas e espalhava-se nas salas-de-estar quentes das casas bem-pintadas onde famílias felizes jantavam.
O barulho abafado de risadas e vozes permaneceu quando ela abriu arrastando um portão enferrujado perto do poste pintado de laranja até alguma altura, dando acesso a uma servidão, e isso a tranquilizou: continuava a não ser notada pelas pessoas ao seu redor. Um filete um tanto largo de água descia junto a seus pés, sujando-os de barro, e ela caminhava cuidadosamente sobre as pedras da ruela.
Aproximou-se da casa bem ao fundo, pintada de cinza, uma única janela na parede, escancarada. Na ponta dos pés, ela olhou pra dentro do quarto iluminado por uma luz azul-celeste. Lá dentro era diferente, ela sentia, lá dentro ela seria alegre. E tinha alguém sentado na cama, recostado na parede, ensaiando a melodia da música da noite.