1.12.15

confissão

outra vez te senti chegar daquele jeito
do lado de fora da janela o vento que eu ouço desde que habito a ilha
até ruge diferente quando isso acontece
outra vez e mais uma vez aquele tipo de conversa

goteja em mim e às vezes jorra e me encharca
o tanto de palavras que te ouço falar
e enquanto elas permanecem ressoando dentro do quarto
dentro da minha cabeça
dentro do meu coração
a gente senta e deita e se remexe no ambiente
não que seja desconforto
mas também não é estar confortável

também faz parte da confissão te dizer que dessa vez foi profundamente dolorido

por me enrolar nas minhas reflexões que constantemente se perdem por aí
também me enrolo nas decisões
também ensurdeço sobre o que as pessoas não me dizem
tecendo esse cobertor de (des)considerações que vezenquando revolve pra cima de mim
e às vezes quem puxa ele pra cima de mim sou eu mesma, aos chutes e mesmo sem perceber
me sufocando e me matando de calor
e pra me livrar preciso rasgar com dentes e unhas
o que me envolve pra além do cobertor

eu me atirei da janela naquele dia de chuva e me estatelei nua no asfalto ali da rua

e escuto
palavras sobre pensamentos que nunca tiveram espaço em mim
(na palma da minha mão tem a presença da ausência daquele tanto de linhas)
e deduções sobre o que sinto, o que tu sente, o que acontece
têm coisas dessas que são capazes de cortar a minha carne exposta
enquanto aos poucos me liberto do cobertor
e do que me envolve pra além dele

e só pra constar
sabendo que de alguma forma as pessoas sabem
não possuir e não querer possuir
ser, estar, deixar ser e deixar estar uma pessoa liberta
do padrão que nos quer atados de forma sufocante
no qual eu já vivi a minha infelicidade
batendo de frente com ele e rachando sua concretude
não é questão de desafeto
não é questão de luxúria
não é questão de putaria e nem de ausência de laço
não é não-amor


-


desarmo o que envolve meu coração
afasto os grilhões de ferro com suas toneladas de peso
estouro os cadeados pra que não possa mais usá-los

nos momentos de guerra
nos momentos de amor


já sabendo que no fim
não existe de fato alguém que vence nisso tudo


e eu me entrego

7.10.15

passei o dia

me recheando de silêncio
assim como o dia passou bastante silencioso por mim
a não ser aquela trituradora de cana-de-açúcar na feira por onde passei
e a grama molhada da chuva inconstante grudou na saia que eu usava
a grama grudou, grudou um pouco de terra, a chuva grudou na minha pele
e
eu
sus
pirei

quanto do que eu escrevo é real dentro e fora de mim quanto do que eu escrevo é pra me fazer acreditar quanto do que eu escrevo é mentira quanto do que eu escrevo é pra fazer acreditar quanto do que eu escrevo me habita tudo do que eu escrevo é porque eu pego essa minha cabeça e esse meu coração e minhas dores e medos e amores e anseios e desejos
e
chacoalho
e espremo
até sobrar só o bagaço
igual sobra de cana-de-açúcar triturada depois de retirado o caldo
às vezes eu guardo tudo em uma jarra bem bonita na geladeira
às vezes eu jorro tudo gramados afora

hoje eu parei a bicicleta do lado de um dos banquinhos da beira-mar
esse era o banquinho onde eu dava meia-volta quando comecei a pedalar com mais afinco
era só até onde eu conseguia chegar numa ida-e-volta sem perder tanto o fôlego
hoje eu quero devorar as ruas e estradas e chãos que se apresentam diante de mim

o mar revolto por um vento que anuncia as tempestades que virão formava ondas
coloridas de terra
e eu senti um frio igual àquele que dá na gente naqueles fins de tarde depois de um dia de praia de banho de mar
que a gente insiste em permanecer na areia mesmo sabendo que vai morrer de frio com o vento que vem
o vento mensageiro de tempestades chacoalhava um barquinho colorido
igual meu coração chacoalha aqui dentro o tempo todo
às vezes eu acho que o barquinho vai virar de cabeça pra baixo vai todo mundo morrer afogado
às vezes eu acho que quem tá no barquinho deu um jeito de criar asas
e já tá lá longe voando nadando no céu


eu parei a bicicleta do lado de um dos banquinhos da beira-mar
e esse era o banquinho onde eu dava meia-volta quando comecei a pedalar com mais afinco
era só até onde eu conseguia chegar numa ida-e-volta sem perder tanto o fôlego
mas hoje eu parei a bicicleta lá só pra olhar o mar se revoltando dentro dele mesmo



e eu quero devorar as ruas e estradas e chãos que se apresentam diante de mim
e além
e eu vou

12.9.15

(também) ando perdida

Faz dias e noites que te vejo e te escuto indo e vindo do quarto carregando teus cafés repetidamente, canecas diferentes, aquele último tu fez um pouco mais forte
O vento acabou de bater a porta de uma forma ruidosa e me assustei de leve, mas não tem ninguém ao redor pra compartilhar essa sensação comigo
O coração acelerou, desacelerou

E penso em ti com o muito amor que te dedico e te sinto
sentado num banco na beira da lagoa
refletindo
olhando pro céu e talvez pensando se por acaso não esqueceu os óculos em casa
pra poder ler os sabores dos chás praquela senhora que não sabe ler e que tá com dor de barriga


Quando eu era criança e a gente viajava pra lá e pra cá entre litorais, paisagens do oeste e divisas de estados
eu olhava pra fora e me imaginava montada num cavalo acompanhando o carro e o subir e descer da topografia
Depois de uma das nossas tantas conversas sobre a vida o mundo as pessoas
te imagino me acompanhando por perto enquanto a ciclovia embaixo de mim se alonga
mas eu tô em cima da magrela e quem tá em cima do cavalo agora é tu
E a gente pode viajar o mundo inteiro sem precisar de muita coisa

Toma conta de mim esse desejo enorme de querer fazer algo por ti pra que tu te encontre no teu olhar quando tu te olha no espelho
E se eu pudesse colocar dentro de uma caixa 
com um laço bem bonito
harmonia
felicidade leve
café-da-manhã na cama com aquela torta alemã que tu adora
serenidade
uma fazendinha no Ratones com uma horta ao redor
e amor tranquilo
Por fora da caixa desenhava meus traços e escondia essa caixa dentro da lata do café pra tu abrir a lata pensando que seria mais um dia e mais uma noite indo e vindo do teu quarto mas na verdade estaria ali o que mais peço no momento pra tudo em que boto fé
muito mais do que algum caminho pra eu seguir nessa vida
pra tu sorrir daquele teu jeito tão lindo e que me dá tanta paz

Porque nada faz muito sentido quanto te vejo assim e tem uma tristeza azul colorindo meus interiores
também me perco um tanto quando tu tá perdido
Nesses últimos dias que te vejo pedindo explicações pra quem acha que não tem que se explicar
se questionando sobre sentimentos que outrora eram benéficos mas agora tu nem sabe mais que intensidade têm
e não quero culpar ninguém porque desacordos existem e às vezes pode ser difícil encontrar o equilíbrio entre essências tão distintas
E quando tu vem pra perto me abraçar eu quero te colocar dentro do meu coração e te deixar dormindo lá
quentinho


Logo eu que fui sempre tão embalada dentro dos teus braços
te escutando murmurar músicas que tu inventava na hora pra me adormecer
e eu adormecia carregando teus murmúrios pros meus sonhos
Eu tenho é vontade de te pegar no colo dessa vez e te ninar até que tu adormeça
pra dentro dos teus sonhos e libertar o que tem dentro da tua mente e do teu coração

libertar



e te visito no sonho pra gente dançar junto os nossos passinhos desengonçados

31.5.15

dois, cinco

sonhei a gente deitado lá naquela grama daquela foto que um dia eu te mostrei
enrolei meus dedos nos teus cabelos
e adormeci
debaixo de um sol explodido de luz
que tem aquecido as paredes do meu quarto mal-iluminado

durante o dia eu deixei pra lá o que teria sido importante resolver
e o clima (me) enlouqueceu com suas variações
chuva e sol se encontravam ocasionalmente
não vi nenhum arco-íris, no entanto
(talvez eu não precise de um, pelo menos por agora
se imagino minha vida como um prisma
separando a luz do sol que explode no meu quarto
em suas cores do espectro
tudo ao meu redor tem se mostrado colorido
até mesmo quando chove)

tropecei em alguém pelo caminho em algum desses dias que se foram
me virei pra olhar pra esse alguém e sorri
só queria dizer que, puta merda, eu senti saudade
permaneço sentindo saudade, aliás
(como vai a contagem dos dias?)

e eu to transbordando de amor e afeto
tem passos conhecidos percorrendo (de novo) algumas trilhas do meu mundo
esse meu mundo que tenho desconstruído, destruído e reformado
por dias e meses e anos
não tem mais portas porque as dispensei de seu emprego - não fecho mais nada em mim
nem telhado porque com tanta ventania ele não suportou
nem janelas - ou as deixo abertas o tempo todo, pelo menos
sempre gostei de janelas
o piso é de grama e flor
uns azulejos que desenhei e colori
daqui até a praia mais próxima são 40 minutos de bicicleta

quatro anos atrás te contei que não conseguia falar dessas coisas
porque eu não me deixava sentir essas coisas
mas essas coisas sempre foram ditas por mim
só que de um jeito diferente
e hoje escrevo um poema pra ti (mais um)
não escondi teu nome nele
porque tu sabes
a gente sabe


meu gato se enrosca nas minhas pernas e diz
que vai chegar um tempo em que
a gente vai estar deitado lá naquela grama daquela foto que um dia eu te mostrei




nós dois e cinco sóis
dentro de um quarto numa torre
olhando pro céu

6.4.15

Na Casa

Me recostei na janela durante seis segundos e meu rosto quase congelou grudado ao vidro. Através do vidro eu via a cidade chacoalhando no embalo de um vento que nunca cessa. O relógio na parede me avisava que o vento não carregava consigo os ponteiros: há horas eu o encarei pela última vez e nada moveu-se desde então.
Eu enchi a caixa da minha bicicleta e os alforges todos com areia e espalhei pela sala. Os vizinhos atravessam a rua chacoalhando-se com um vento que nunca cessa - parece que dançam! - e os que olham aqui pra casa não veem a praia que eu fiz pra mim. A areia tem estado tão gelada quanto as janelas. As janelas chacoalham.
Numa noite dessas eu acordei e corri pra sala e me enrolei na areia. De cima do sofá um leão me encarava.
Queimei o jantar outra vez.

Dois pássaros construíram um ninho dentro da banheira.

O mar chegou na soleira da porta e arrastou minhas flores e minha horta com ele.
O leão se enroscou nas minhas pernas, lambeu minhas coxas e cantou um rock antigo pra eu dormir.

Minha casa pegou fogo.
O vento chacoalhou as cinzas de tudo; as fez dançar com a areia.
A palha do ninho tem cheiro de incenso.


Os ponteiros andaram um pouco. Pra trás.