4.5.16

A lunática está no sótão

Achei uma caixa no sótão de casa
Uma casa de cores,
mas às vezes parece que não
A caixa guardava tantas coisas
que ao abri-la explodiram aqueles confetes de Carnaval bem na minha cara
revoaram pelo cômodo
e brilharam ao sol que entrava pelas frestas das janelas
Confetes de cores
alguns me cegaram
alguns refletiram desenhos
nas paredes no assoalho na minha pele

Revirando a caixa externei todo seu conteúdo
e a caixa guardava tantas coisas
que ao revirá-la tudo o que a habitava esparramou-se pelo cômodo
parecendo líquido, fluido
E parecendo isso
formou um mar revolto de ondas
que encharcou
as paredes o assoalho a minha pele

Os confetes, aos poucos, descendiam sobre o mar de coisas
e descansavam nas ondas

Abri as janelas pra deixar o sol entrar
(resolvi não fechá-las caso chovesse)
Sentei-me dentro do mar
que me acolheu feito o céu
E mergulhei, pra me banhar e pra deixar fluir em mim
o que existia
do lado de dentro da caixa

risadas que ecoam o calor de uma fogueira o morro na estrada o cheiro dele a ciclovia cheia de sol o amanhecer no morro aquele dia na praia as montanhas cobertas de neve ascendente em câncer
o cheiro de vela uma noite de primavera a roda de amigas lua cheia a roda de lobas os uivos música e dança música e dança música e dança o cheiro de vela o vento na minha cara
o frio da neve na minha mão aquela noite no teatro as lágrimas que chorei por três dias o sangue pintado na cara a ciranda que me abraçou uma noite inteira sol em touro o quentinho da cara dela o vidro de conserva quebrado com um garfo risadas que ecoam por quem sou e quem fui
a água saindo cinza da torneira o chute no meio-fio meu sol no oeste aquele campeonato em que eu saí do time o mergulho no mar os mergulhos nos mares a vontade de voar a felicidade na bicicleta a dor de não ser considerada aquela noite na rua das baladas o céu estrelado a sopa na frente da lareira aqueles tantos de livros o cheiro de café em casa chuá eu conversando comigo a canção no aeroporto a chuva gelada escorrendo por dentro do meu casaco em quem sou em quem fui
abraços e abraços e beijos e abraços e lua em leão e beijos e beijos e beijos e abraços 
o coração
bombando
amor
e eu 
me afogando no mar de tantas coisas que estavam dentro da caixa dentro do sótão na parte da casa mais perto do céu 

e que sou eu mesma


Uma casa de cores, 
mas às vezes parece que não






The lunatic is on the grass
The lunatic is on the grass
Remembering games and daisy chains and laughs
Got to keep the loonies on the path

And if the dam breaks open many years too soon
And if there is no room upon the hill
And if your head explodes with dark forebodings too
I'll see you on the dark side of the moon
(Brain Damage - Pink Floyd)