28.12.09

Vulcano

01:04

Mais uma volta do ponteiro maior no relógio. Outro minuto. 01:05. E nunca entendo o que acontece comigo. Um daqueles dias em que eu pareço completamente impossível de agradar e qualquer coisa pra mim é digna do meu desprezo instantâneo.

Brócolis* disse que "Tomate* é rico, pena que é feio".

Quando eu estou nesse dia-de-crítica, que eu apelidei carinhosamente de "vulcano", eu vejo em tudo ao meu redor o conjunto de coisas que me são insuportáveis.

1 - Ser rico. Afinal, qual a merda da vantagem de ser rico? Ter tênis legais? Vestir as melhores roupas? Ter um carro e uma casa e uma tv de plasma? Eu sei que vivemos em uma sociedade capitalista onde é isso mesmo que importa, mas não dá pra pensar diferente? Ou tentar ser diferente e não dar bola pra capacidade monetária de uma pessoa? Às vezes eu sinto muita tristeza por ela ter sido influenciada a esse ponto. E por vivermos em uma sociedade tão decadente.
2 - Ser feio. É uma corrente à qual as pessoas se prendem e esquecem de quebrar, ou não têm capacidade suficiente pra isso. Porque é desumano ignorar ou tratar mal uma pessoa porque ela é feia. E, seriamente, o que é "feio"? Não gosto de usar esse termo, porque quando se trata de beleza ou feiura as pessoas têm dentro de suas próprias cabeças o definido de cada uma dessas palavras.

Bem simples: isso eu acho que é bonito, isso eu acho que é feio. Prontoacabou, resolvido o negócio.


01:36.


* Nomes fictícios, perceptivelmente.

24.12.09

Três pequenos pontos de luz

Uma animada discussão à mesa, acompanhada de amendoins salgados, chopp e suco de laranja. Propagandas antigas, nadadores e medalhas na tv, mulheres com bigode, exercícios físicos e igreja católica.

*

Folhas secas próximas ao muro de cor estranha e, pelo jeito, muito mal-pintado. Folhas secas, mas não o suficiente para gritarem alto a dor de serem esmagadas. Amarelas, rachadas do calor e do sol, carcomidas pelos insetos.

*

I de Inúmeras lágrimas, mas também inúmeros sorrisos, uma vida inteira juntas, brigas que não significam nada. R de Raridade, como tu és, o que representas pra mim, aquele velho clichê de "joia rara", porque é assim mesmo, e eu te amo. G de Gratidão, pelas noites de risadas, pela compreensão, pelo coração aberto pra mim e pelo companheirismo. V de Viagens, idas e voltas, despedidas e chegadas regadas a abraços, sorrisos e perfumes bons. E T de Talvez, porque essa palavra confunde um pouco a nossa vida, embora não interfira em nada no que eu sempre quis pra gente: um M, de Melhor, as melhores coisas e sentimentos e coincidências que a vida pode oferecer.

Feliz Natal pra nós. :)

*

9.12.09

Nuvem Agridoce

Mas deixa o vento mexer nesse céu que mais parece feito de algodão. Deixa as nuvens se espalharem e se misturarem com esse cheiro agridoce que vem da janela do prédio azul aqui atrás. Acho que é isso aí mesmo, centenas de nuvenzinhas agridoces espalhando-se pelo céu azul-amarelo-laranja-vermelho quando o sol está dando lugar pra lua. Milhares de nuvenzinhas agridoces querendo fazer parte do pedaço de céu que eu olho enquanto tu estás indo embora. E eu conto teus passos, que separam as nuvens com sabor, e é como se o doce do agri me fosse enjoativo, e o agri do doce me fizesse muito mal. És um veneno pra mim, cuja dose aumenta cada vez que te vejo, e eu me forço a sofrer só pra te ver mais um pouco, sabendo que quando tu fores embora sequer o agridoce existirá pra mim.

Deixa eu te falar do que acontece quando tu estás perto? É agri e doce ao mesmo tempo. É tudo e nada, é essencial e irrelevante. É tão bipolar que me vicia, porque eu não tenho certeza do que o amanhã reserva pras minhas nuvens, elas podem chover cachorros, ou então abrirem-se majestosas pro sol que um dia ainda vai parar de brilhar. É tão bipolar que me vicia, todo dia de uma forma diferente, porque és exatamente assim. Em um dia és cedo, em outro és tarde. Perto do almoço hoje, e madrugada - quem sabe? - amanhã. És igual a mim agora e meu exato oposto em questão de centésimos de segundos. És tão irregular, e mesmo assim eu te prefiro aos outros. Porque sempre faz com que minhas nuvens tenham uma surpresa toda vez que tu resolves aparecer, porque sempre as desmancha e as reúne de um jeito diferente, porque sempre me surpreendes com teu jeito disforme, mas sempre com esse gosto agridoce.
É, é assim que tudo parece quando estás perto de mim.

Senhor agridoce, és pra mim agora o único dono das minhas nuvens. E eu sequer conheço o timbre da tua voz.

1.12.09

- Garota, espera, espera aí, fica parada! Olha pra mim. Sério, não tô brincando, olha pra mim... O quê? Não desvia o olhar, que eu gostei desses teus olhos tão castanhos. Faz tanto tempo que eu sento debaixo desta árvore e nunca passou uma garota igual a ti. Como eu sei? Porque eu sinto, oras... Eu sei que eu não estava a te olhar, mas o som do meu violão foi atraído por ti, e eu tive que te olhar. És magnética, garota, és diferente... Meu nome? É desimportante, nome comum de garoto, mas tu podes me chamar do jeito que tu quiseres. És tão diferente! Olha, tens o sorriso tão lindo...




Meu violão não errou ao te escolher, eu sei.

15.11.09

Astra

Um pouco de tempo na janela todos os dias faz certas coisas mudarem bastante. O vento passa incessantemente, e faz os papéis em cima da mesa voarem livres pela sala com teias de aranha em um dos cantos, faz as folhas do livro em cima do sofá ensaiarem alguma dança suave, faz o cheiro de tempero que vem da cozinha espalhar-se por todos os cinco cômodos do apartamento.
Agora, do morro que eu vejo, treze pipas coloridas cortam o ar como se fosse fácil ser mais leve do que nem ao menos se pode ver, e o vento se engraça e as faz subir cada vez mais. Elas perdem-se no azul do céu. Elas sugerem essa vida mais leve. Elas esperam o vento parar, pra poderem voltar ao chão, às mãos de seus donos, ao lugar do quarto reservado especialmente pra cada uma delas. Mas qualquer dia desses, sopra outro vento e elas voam de novo, e aí será como se nunca tivesse acontecido.

E talvez seja assim mesmo que eu esteja agora: esperando. Esperando, assim como as pipas esperam um dia pararem de voar. Esperando, mas com uma esperança finita e, tenho que admitir, bastante pequena. Mas ela existe, e é isso que me faz continuar esperando. Quem sabe isso acabe também, mas quem sabe um dia isso retorna. Nunca se sabe, afinal.

25.10.09

Nanica.

Aconteceram muitas mudanças esse ano. Eu perdi muitas coisas que me eram valiosas. Apesar de tudo, eu tive que manter a cabeça levantada, porque minha vida não tinha acabado.
Eu não sei exatamente quando, onde ou como aconteceu, mas alguma vez eu levantei minha cabeça um pouco mais alto e tinha uma pessoa diferente na minha frente. Uma pessoa cuja fama de brigona e mal educada era realmente grande, e tal fama não mudou em nada até hoje o quanto eu gosto dela. Porque era apenas o que as pessoas diziam, e as pessoas dizem o que elas querem. Acredite ou não, se uma pessoa abre a boca pra falar de outra, geralmente ela não vai dizer coisas boas. As pessoas têm o hábito venenoso de falarem sempre o que elas sabem de ruim de alguém, mesmo que esse alguém tenha milhares de coisas boas pra se falar.
A pessoa mais alta que eu (não que seja relevante alguém ser mais alto do que eu), tem dois olhos muito escuros que muitas vezes me entendem além do normal e que me repreendem quando eu faço coisas que não são agradáveis. Ela também tem um abraço bom, uma risada interessante e algumas piadas prontas sobre todas as pessoas que se possa imaginar.

Bruni, eu não me importo se tu me magoas algumas vezes, se bates em mim forte demais quando quer brincar, se não vais tão bem na escola ou se me xingas tão carinhosamente. Eu só me importo de tê-la sempre comigo, do meu lado. Muito obrigada por tudo, eu te amo. :)

22.10.09

Aleatórias. Ou não.

Dois cachorros caminhando de forma sincronizada, debaixo da chuva. A chuva para, mas as nuvens continuam no céu. Um casal sentado no banquinho da rua. A rua coberta com as folhas que caíram das árvores. Das árvores, milhões de pássaros cantando sem melodia definida. A melodia doce que vem da janela do prédio azul-claro. Ao lado do prédio azul-claro, outro prédio, e na janela uma luneta apontada para o céu. O céu e o sol esforçando-se para aparecerem entre as nuvens. As nuvens cada vez maiores, fazendo do céu seu reino. Um rei de ninguém, descalço, tremendo de frio, esfomeado, gritando aos céus sua desgraça. O céu novamente, e agora ele está chorando. O choro da criança que caiu porque ficou olhando para os dois cachorros.

Dois cachorros caminhando de forma sincronizada, debaixo da chuva.

17.10.09

Órbita planetária


O som da TV no quarto, uma voz vinda de outro cômodo, a música ruim que vem da rua. O violão em cima de um sofá, o cobertor jogado sobre o outro, livros na estante e um cigarro queimando junto à janela. Milhares de luzes nos morros, nenhuma estrela no céu escuro.


Eu olho e escuto as coisas ao meu redor, e tento escrever alguma coisa que se resuma ao muito que não sei explicar. Eu tento escrever sobre as coisas que não sei explicar, e o muito ao meu redor se resume a tudo que olho e escuto. Eu explico o que olho e escuto, e muito do que escrevo parece não ter explicação.

29.9.09

LasPuppY's

Meses e meses sem se ver. Sem conversar direito. Meu coração já não cabe na caixa torácica, encheu-se de saudade e de dor. Eu trocaria qualquer coisa por mais alguns anos da gente juntas. Por nossas risadas, por nossos passeios e dias sem fim. Por todos aqueles momentos que a gente sempre pensou que seriam pra sempre.

Agora a chuva lá fora tá caindo e me lembrando que entre a gente existe a distância. Mas eu sei que o sol vai voltar qualquer dia desses, assim como eu. E, então, poderemos imitar as fotos das outras pessoas, jogar dominó até de madrugada, procurar pessoas no orkut até amanhecer, falar besteiras, comer bolacha, caminhar pelas ruas da nossa subdesenvolvida e pacífica cidade, cantar, se abraçar e celebrar essa nossa amizade tão forte, tão plena, tão completa.

Eu amo vocês com todo o meu coração.

26.9.09

Obrigada

Ontem conversei com o pai da deusa da chuva. Uma borboleta rosa insistiu em me chamar pra perto dele, mas eu não pude pegar o inseto metálico. No entanto, os 20 centavos que eu pretendia gastar em um chiclete, saíram do meu bolso, e a mão quente dele as acolheu com cuidado. Ele me fitou com atenção e fez perguntas. Acertou o meu gostar de ler, por ter escolhido um marca-página como preferência. Quando contei do meu sonho com música, ele sorriu, e disse que eu era uma garota muito interessante, dessas bem difíceis de se encontrar. Me contou das viagens, do tempo, de maestros e de escolhas. Disse que eu tinha muito que aprender, mas que também teriam o que aprender comigo.
-
Eu penso que as pessoas ficam lisonjeadas com as coisas erradas. Outro dia eu estava caminhando e duas mulheres, que estavam na minha frente, conversavam. Uma delas falou que a outra estava mais magra, e esta respondeu um muito obrigada cheio de orgulho. Essa semana aconteceu algo parecido comigo, mas a minha resposta não foi um muito obrigada imbecil, e sim um dar de ombros. Toda essa coisa de estética e bonito-pra-sociedade muitas vezes me parece algo muito idiota.

Eu me sinto muito bem quando lembro que fiquei encantada ao extremo com o elogio de ontem. Às vezes eu paro e penso que eu devo ser alguém muito errado por valorizar esse tipo de coisa, por preferir música clássica, por gostar de ler, por me esforçar pra aprender tudo que eu posso, por gostar do sol e do vento e do céu. Eu paro e penso muito sobre isso. Mas eu sempre acabou concluindo que, definitivamente, a errada nessa história toda não sou eu.

30.8.09

Acorda, meu bem

Me diz o que é certo, porque eu não acho normal pensar em alguém tanto assim. Me diz o que fazer, porque me parece que eu sempre faço e falo as coisas erradas. Tenho procurado algum vestígio de sanidade em mim, tenho tentado entender porque tudo isso me abala nessa proporção tão grande, tenho buscado algum indício de que isso te abala tanto quanto a mim. Não consigo entender porque me sinto tão diferente. Eu gostaria que as coisas tivessem tomado outro rumo.

25.8.09

Distante

As estrelas ontem se recusaram a aparecer. O neon vermelho da loja do outro lado da rua brilhava de forma sincronizada enquanto ela dormia no sofá. Lá fora, na rua, a chuva começava a cair.
Ela despertou com o barulho dos pingos batendo na janela, e não conseguiu mais adormecer. Ficou deitada no sofá, esperando o sol vir dizer bom dia. Ele não veio.

Agora a música paira pelo espaço quase vazio da sala. Em um canto, junto ao violão, ela chora enquanto tenta cantar. Seu mundo caiu.

9.8.09

Danke für alles

Ele é capaz de escrever poeminhas pra mim no verso de contas e guardanapos. Me ama de um jeito incondicional, me ama quando sou mal educada, me ama quando erro, me ama de cabelo rosa, azul, roxo, castanho e até mesmo careca. Me ensina coisas que eu não aprenderia na escola. Conversa comigo como se tivesse a minha idade, e me faz sentir como se tivesse a idade dele. Me ensinou que o legal é ser diferente, e que eu não preciso ter o que todo mundo tem pra ser alguém melhor. Ele tem milhares de dificuldades e preocupações e mesmo assim se importa com minhas manhas. Ronca enquanto dorme e até faz melodia com isso. Cuidou de mim, riu de mim, me embalou até o sono chegar, me acha linda até mesmo quando eu tenho crise de existência e estou batendo a cabeça na parede. Me dá um abraço bem apertado, um beijo na testa e diz que me ama antes de cada partida. Me dá um abraço bem apertado, um beijo na testa e diz que me ama em toda chegada. Jornalista, escritor, poeta, super-herói, eletricista, encanador, guarda-costas, piadista, inventor, médico, cozinheiro... Tudo isso ao mesmo tempo e em uma pessoa só. Possui o poder de me deixar maluca com um atraso, me tranquilizar só por ouvir a porta abrindo, me fazer feliz como ninguém faz.

Pai, eu te amo muito, msemo qunado as cosias naõ paerçam muito nos sues luagres, e as preocupações,
gigantescas. (L)

30.7.09

Sueños

O sol brilhou mesmo entre as nuvens escuras da chuva que vinha. Brilhou nas folhas das árvores da praça. Brilhou na grama queimada do frio. Refletiu nas janelas dos prédios e na superfície do mar. Depois, cansou-se. E deu lugar à tempestade, aos raios, à queda da temperatura.
Debaixo do céu chuvoso, iluminado pelos relâmpagos, uma pessoa caminhava pela rua deserta. Se estava perdida ou sem rumo, era impossível saber. Mas sorria.

17.7.09

Laços

No teu abraço eu esqueço do mundo e da chuva e do frio lá fora. É como se fosse um filtro de tudo de ruim que tenta se aproximar. Nada mais importa desde que eu esteja contigo, e que durante o pouco tempo que eu te veja teus olhos permaneçam fixos em mim. Tua voz rouca e teu riso me fazem crer que não existe coisa melhor pra escutar. O jeito como tu falas, como te vestes, como caminhas, parece me completar cada vez mais. Teus olhos brilhando enquanto cantas pra mim é algo que eu simplesmente não conseguiria descrever. Nossos dedos brincando distraidamente enquanto a conversa paira no ar.
E, então, a partida. Nem muito demorada, nem rápida demais, acontece como se nunca mais fôssemos nos ver. Mas aí chega o dia seguinte e eu noto que a chuva foi embora. Mais um pôr-do-sol pra assistirmos juntos.

27.6.09

Mão de defunto

O frio é peculiar e parece sem fim. A chuva vem de vez em quando, fina. A umidade relativa do ar aumenta, e o tempo para as roupas secarem também. Casacos, sobretudos, luvas e demais roupas reforçadas saem dos armários, colorindo ou não as ruas. Não neva por aqui, mas há dias em que até os ossos enregelam. Pijamas por baixo da roupa cotidiana auxiliam na busca pelo calor. Banhos frios viram quentes, banhos quentes permanecem quentes. Pés gelados. Um rock antigo ainda toca baixinho na sala, mas o vento sul, que agora vem frio e intenso, começa a uivar do lado de fora da janela.

21.6.09

Lagarto no sol

Acordou quatro vezes noite passada. Mas não era nervosismo, calor, frio, sede ou falta de sono. Sentou-se e ficou lembrando da rotina que tinha. Acordar e sair de casa cedo para ir pra escola e, no caminho, ver os carros e a grama mal-cortada na beira da rua cobertos de geada. Sentir o vento frio batendo na cara como lâminas afiadas, enquanto o nariz e as orelhas queimavam.
Depois de meio ano, ainda é possível sentir que os únicos raios de sol de uma tarde de céu fechado podem ser comparados com os mesmos que apareciam algumas vezes nos céus da cidade antiga. O almoço não chega mais com os badalos dos sinos da matriz. Ainda é possível lembrar, como se tivessem acontecido há poucos segundos, histórias engraçadas e momentos felizes. Ainda é possível sentir o coração disparar e apertar por causa de um abraço.
No meio das lembranças, percebeu que, embora tudo ao seu redor tenha mudado, e muitas coisas em si mesma também, muito do sentimento que a habitava antes continuava intacto, como se essa história de distância sequer existisse.
Acordou quatro vezes noite passada. Mas não era nervosismo, calor, frio, sede ou falta de sono. Era saudade.