11.4.21

vi árvores a derramar suas flores pra ninguém
tô zen no meu momento, Coltrane anti-jazz
crianças têm o céu no alcance das mãos
irmão, será que há tempo de poder ser mais?

eu sei, caramba, nem estrelas são iguais
tem mais: vitória agora é uma fresta de sol
no fim das conta, Tetsuo é quem tinha razão
então todas areias da ampulheta vão 
(É tudo pra ontem - Emicida e Gilberto Gil)


Celebrando cada tempo de poder ser mais vivendo esse tempo tão ruim. Aqui tem sido tudo na base do cuidado de si e do coletivo, no afeto que move, na esperança que não espera, na raiva canalizada pra mudança, no amor como revolução real, e isso há tanto tempo mas dessa vez um pouco difícil (porque eita que saudade de morar em vários abraços).

Essa foto me faz pensar na distinção entre uma árvore e uma nuvem, só que se parecem na impermanência. E vou atravessando o teto da casa, a copa da árvore, o infinito do céu...

Nada nesse mundo é meu de verdade, mas gosto de pensar que toda manhã o olhar dessa árvore pousa no meu que também olho pra ela e a gente fica assim se pertencendo por um momento.

E a areia da ampulheta vai... 

⏳ 🌸 ☁




17.3.21

 tem vezes que eu olho no espelho e ele me devolve um portal inteiro
retrato da minha cabeça rimando com o que tem aqui fora, tu vês
três cadeiras vazias, dois cães dormindo
tentei contar janelas e portas mas são tantas
da casa do espaço do corpo da alma de estudo do segredo da mente do peito do tempo do mistério

quando eu era criança inventava universos novos pelas fendas das paredes
nos azulejos trincados do piso
na rachadura daquela caneca amarela que meu tio me deu uma vez
que era pra tomar sopa de feijão
enquanto lá fora o inverno chegava nos ossos e a gente pensava "será que a mãe vai me deixar faltar na aula amanhã?"

eu procurava esses universos e eles me encontravam e a gente ficava ali se encarando

ano passado na primeira semana de isolamento eu achei uma rachadura na parede bem na frente da cama
foi de lá que vi uma menina que procurava universos, e ela foi meu universo nessa vez e tantas outras
será que ela sabia que seria ela mesma um universo na fenda da parede?

minha melhor amiga das primeiras séries da escola queria ser astronauta
a gente passava o recreio na biblioteca, eu lendo e ela desenhando foguetes
hoje eu olho pras pessoas pensando "será que essa pessoa vai me deixar viajar com minha nave espacial nesse universo que é ela e que é só dela, todinho dela, que será que ela vai me mostrar desse universo todinho dela?"

cê acredita em fenda de espaço-tempo?
faz uns anos eu tenho a sensação de que tudo, tudo, tudo, tudo é eterno e se interfere infinitamente

lê aí aquele poema do Arnaldo Antunes 
"o buraco do espelho está fechado"




O buraco do espelho está fechado
Agora eu tenho que ficar aqui
Com um olho aberto, outro acordado
No lado de lá onde eu caí

Pro lado de cá não tem acesso
Mesmo que me chamem pelo nome
Mesmo que admitam meu regresso
Toda vez que eu vou a porta some

A janela some na parede
A palavra de água se dissolve
Na palavra sede, a boca cede
Antes de falar, e não se ouve

Já tentei dormir a noite inteira
Quatro, cinco, seis da madrugada
Vou ficar ali nessa cadeira
Uma orelha alerta, outra ligada

O buraco do espelho está fechado
Agora eu tenho que ficar agora
Fui pelo abandono abandonado
Aqui dentro do lado de fora

8.5.19

A música me salva todo dia, me acolhe e faz meu coração serenar. 

Essa música pra mim é especial, a primeira que aprendi a tocar na flautinha: a linda Anunciação dos infinitos amores e todos os seus sinais, uma das gostosuras de se viver... 

Que constantemente nos apaixonemos pela vida e queiramos anunciar pelos ventos a maravilhosidade que é estarmos vivas. 

✨💓 🌻




16.2.19

acolhida de Nix

o conforto da noite me chamou em seu colo
aconcheguei-me a escutar seus sussurros
histórias de lunas e sonhos

o vento embalou
sua música e eu

ali, deitada no colo da noite
entrelacei meus dedos à melodia que me enlaçava
e assim descansada igual barco no porto
deixei meus olhos transbordarem o mar

a noite reza minhas dores
acolhida em seu colo, teço meus infiniversos
nos arredores, um céu roxo de nuvens se encharca de chuva quente e salgada
a tempestade dilacera os caminhos e as casas
- sob a chuva, em breve, a humanidade terá que traçar novos mapas -

assim permaneço por longos momentos
carícias noturnas enroscam os cabelos
milágrimas escorrem as tristezas sentidas

o vento embalou
sua música
meu choro
a reza da noite
e eu





cheguei até o colo da noite
aqui permaneço até a chuva cessar
e daqui regresso andando pelos novos caminhos








{A deusa grega Nix é deusa da noite profunda; é filha de Caos e gêmea de Érebo, deus da escuridão}