23.7.13

Apicula*

Acontecia a reunião ao redor da castanheira da praça central. Somente os homens mais velhos, suas mantas cor de mel, cor de terra, cor de tronco de árvore. As barbas completamente brancas diziam sobre o tempo e o trabalho, as mãos e os calos diziam sobre o tempo e o trabalho, os ombros caídos de cansaço e as pernas vacilantes diziam sobre o tempo e o trabalho.
As portas das casinhas do povoado, todas estreitas e lascadas, sem tranca, gemiam e dançavam com os sussurros dos ventos quentes. Os meninos espiavam por detrás das cortinas, nas janelas gigantes; era a profecia das suas vidas ali, alguns decênios e seriam seus os pés descalços sobre a terra seca do arredor da castanheira. Os rapazes ainda não voltaram do banho matinal. As mulheres a essas horas deitavam-se nas redes e acompanhavam a reunião das varandas, algumas fumavam cachimbos enormes, mas nesse momento todas vestiam amarelo. As meninas e as moças estavam em seus quartos, nas estufas das flores nos altos do vilarejo, e dormiam todas nuas porque dentro de uma estufa é muito quente, como você pode saber.

Quando o sol ficava no ponto mais alto do céu, os meninos desciam das janelas e enchiam panelões com água e sal, pacientemente misturavam sementes moídas até formar um corpo só, e cozinhavam até desgrudar das paredes do panelão. Depois, acordavam as mulheres nas redes, e essas iam chamar as meninas e moças, e as meninas e moças desciam nuas dos montes espalhando o cheiro de flor de estufa por todo canto.
E era nesse momento que os homens mais velhos partiam, debaixo de suas mantas, descalços, atravessando os montes das estufas pra morrer de frio do outro lado.

Os meninos voltavam pros quartos pra chorar a morte. Os rapazes chegavam e almoçavam junto com as mulheres. As meninas e moças ferviam água e jogavam suas flores pro chá da sobremesa.

E então no outro dia as meninas e moças traziam das estufas os alimentos, e as mulheres cuidavam dos animais, e os meninos e rapazes cozinhavam pra todos. E no próximo dia isso acontecia outra vez, e nos próximos dias, e nos próximos meses e anos.





Até que chegava o tempo do frio do outro lado do monte, os rapazes já eram homens velhos e reuniam-se na praça central ao redor da castanheira, as mulheres já estavam enterradas ao redor da árvore, as moças eram mulheres e vestiam-se de amarelo, existiam meninos pendurados nas janelas e meninas e moças dormindo nas estufas.







*do latim, "abelhinha"
inspiração:  http://ericvalli.com/index.php?/stories/honey-hunters/ 

18.6.13

o mapa que tu me deste me fez chegar aqui

eu desobedeci as placas, pulei os muros
e quebrei as janelas
enquanto vinha, corri fugindo de mil cachorros brabos
debaixo de um sol de muitos calores
deitei no telhado de uma casa preta
e vi as cores das roupas do varal derretendo

eu morri

me levantei tonta de fome e cansaço
me apoiei nos joelhos e, olhando em frente,
eu vi o Sol vomitando fogo no horizonte

e congelei

te puxando pela manga do casaco
sussurrei -não me perdoe por esse amor gigante
que te assusta
mas me diga se anseias por ele, que eu te amo

tu me olhaste, piscando os olhos
e resolveu se agarrar em outras atrás de muros brancos
ou por cima de bancos amarelos
e meu coração, bobo, grande e vermelho
sangrado de sentimentos
parou por dois segundos



virei pro outro lado do céu
pra perceber que eu vivo sempre em ciclos
é tipo a roda da fortuna
ou a correia da bicicleta

eu sempre volto pra um porto
o mais cheio de luz de todos
por cima do mar eu deixei meu barquinho
e fui pela areia até o farol
pra assistir embaçada de lágrimas e suspiros
uma Lua completando seu ciclo de gravidez

16.5.13

Otsoa*

Existe um povoado bem além daqueles morros enormes. As casas são feitas nos troncos das árvores e as pessoas se estendem nas raízes gigantes na hora da sesta, roncando e sonhando com a enchente e os animais marinhos. São polvos e lulas e ouriços e peixes e baleias nadando por entre as árvores cobertas de água.


Tem um lobo que mora em cima do morro mais alto da região - que é também o mais alto do mundo. Ele vive lá há séculos, preso numa caverna, e ninguém sabe explicar direito de onde ele veio ou de que forma foi parar por lá. Tem gente que diz que foi da vez que o mundo inteiro alagou, a mesma vez que povoa os sonhos de todos, e nessa ocasião o lobo nadou durante meses... e foi parar pra cima do morro. Tem gente que diz que ele era homem moço, e dedicava amor pra uma mulher moça que só o amava de volta em noites de lua cheia e só debaixo das flores brancas venenosamente perfumadas, até que uma noite ele adormeceu sufocado e acordou virado lobo, em cima do morro.
 Quando faz calor o lobo rosna, fazendo os telhados gemerem de medo, e as pessoas suam com seu bafo quente, e o suor tem cheiro de flor branca. Quando faz frio o lobo uiva, assovia desvairado, e enlouquece as pessoas do povoado que amam as outras em silêncio, enchendo de som os ouvidos e os cérebros delas, porque sentem o amor pra dentro.


Quando nasceu a segunda filha daquela que teria vindo quarenta gerações após a mulher moça que todos diziam ser o amor do lobo, ele atirou-se do morro. Andou dificultosamente por entre a neve do inverno durante um mês; chegou aos campos de milho durante a primavera e alcançou a mata no verão.

 
Encontraram-no lambendo os pés da menininha e o mataram.




A menina cresceu, entrou no mar e virou sereia.
E o mundo alagou-se das lágrimas da mãe dela.









*Basco, significa "lobo".

14.4.13

Amans*

Brotou no céu o esplendoroso círculo de fogo
aquecendo tudo 
e beijou a minha boca

Na hora do almoço o Sol coube no meu abraço
e então, carinhoso, lambeu meus cotovelos

Antes de partir, ele chegou-se em mim
esquentou meu ventre
e soprou no meu pescoço

Na noite esclarecida
Céu de Brigadeiro em modo noturno
a Lua Crescente sorriu
enquanto aqui embaixo meus olhos eram nuvens carregadas

No amanhecer doutro dia
olhei pra cima 
e vi dois arcos-íris encurvados sobre a cidade






*Do latim, significa “Amante”: aquele que ama