20.6.16

dê asa - que o céu, minha casa

saltitei
por entre os céus
nuvem por nuvem
azul amarela roxa lilás vermelha 
mescla de morte de dia e nascimento de noite
e me estatelei no meio de um nada
descolorido negro
e rodopiei dançando
na música cósmica que eu sentia sibilariar ao meu redor 


e uma estrela acendeu na minha mão


e já há tantos dias que o Universo tem me enviado sinais...

às vezes os sinais vêm sonhados 
enquanto durmo
sonho com um trem-bala que descarrilha e sai a flutuar por aí
e me sinto bem
e às vezes os sinais vêm em palavras
que ouço dizer nas entonações de tantas vozes
em tantas línguas
e às vezes os sinais vêm em forma de gente
que encontro ao acaso, sem espaço-tempo definido pra encontrar
como aquele moço que trazia consigo sua bicicleta
e um outro moço e uma outra moça mais adiante
que debaixo do meu teto dividiram a noite comigo

e me instigam a voltar a dançar uma dança encantadora
carregada de descoberta, sabedoria, gente linda, lugar sem nome
regida pela música que me convida desde a estrada
todo dia e cada vez mais alto e mais forte
ainda dentro do meu sonho latinoamericano
e de educação libertária
e de povo
ainda dentro do meu coração que pulsa um sangue vermelho e quente
acelerando-se
acalmando-se
e me levando adiante


até que as estradas as pessoas as vidas os cosmos os mares os multiversos
se encaixem em meu coração
que faz saltar dos meus olhos
as lágrimas que refletem os céus das noites cujos dias me senti viva como nunca





"Por la vereda azul,
domadora de sombrías estrellas
seguiré mi camino.
Hasta que el Universo
quepa en mi corazón"
(Curva - F G Lorca)
🌒🌓🌔🌕🌖🌗🌘

4.5.16

A lunática está no sótão

Achei uma caixa no sótão de casa
Uma casa de cores,
mas às vezes parece que não
A caixa guardava tantas coisas
que ao abri-la explodiram aqueles confetes de Carnaval bem na minha cara
revoaram pelo cômodo
e brilharam ao sol que entrava pelas frestas das janelas
Confetes de cores
alguns me cegaram
alguns refletiram desenhos
nas paredes no assoalho na minha pele

Revirando a caixa externei todo seu conteúdo
e a caixa guardava tantas coisas
que ao revirá-la tudo o que a habitava esparramou-se pelo cômodo
parecendo líquido, fluido
E parecendo isso
formou um mar revolto de ondas
que encharcou
as paredes o assoalho a minha pele

Os confetes, aos poucos, descendiam sobre o mar de coisas
e descansavam nas ondas

Abri as janelas pra deixar o sol entrar
(resolvi não fechá-las caso chovesse)
Sentei-me dentro do mar
que me acolheu feito o céu
E mergulhei, pra me banhar e pra deixar fluir em mim
o que existia
do lado de dentro da caixa

risadas que ecoam o calor de uma fogueira o morro na estrada o cheiro dele a ciclovia cheia de sol o amanhecer no morro aquele dia na praia as montanhas cobertas de neve ascendente em câncer
o cheiro de vela uma noite de primavera a roda de amigas lua cheia a roda de lobas os uivos música e dança música e dança música e dança o cheiro de vela o vento na minha cara
o frio da neve na minha mão aquela noite no teatro as lágrimas que chorei por três dias o sangue pintado na cara a ciranda que me abraçou uma noite inteira sol em touro o quentinho da cara dela o vidro de conserva quebrado com um garfo risadas que ecoam por quem sou e quem fui
a água saindo cinza da torneira o chute no meio-fio meu sol no oeste aquele campeonato em que eu saí do time o mergulho no mar os mergulhos nos mares a vontade de voar a felicidade na bicicleta a dor de não ser considerada aquela noite na rua das baladas o céu estrelado a sopa na frente da lareira aqueles tantos de livros o cheiro de café em casa chuá eu conversando comigo a canção no aeroporto a chuva gelada escorrendo por dentro do meu casaco em quem sou em quem fui
abraços e abraços e beijos e abraços e lua em leão e beijos e beijos e beijos e abraços 
o coração
bombando
amor
e eu 
me afogando no mar de tantas coisas que estavam dentro da caixa dentro do sótão na parte da casa mais perto do céu 

e que sou eu mesma


Uma casa de cores, 
mas às vezes parece que não






The lunatic is on the grass
The lunatic is on the grass
Remembering games and daisy chains and laughs
Got to keep the loonies on the path

And if the dam breaks open many years too soon
And if there is no room upon the hill
And if your head explodes with dark forebodings too
I'll see you on the dark side of the moon
(Brain Damage - Pink Floyd)

1.12.15

confissão

outra vez te senti chegar daquele jeito
do lado de fora da janela o vento que eu ouço desde que habito a ilha
até ruge diferente quando isso acontece
outra vez e mais uma vez aquele tipo de conversa

goteja em mim e às vezes jorra e me encharca
o tanto de palavras que te ouço falar
e enquanto elas permanecem ressoando dentro do quarto
dentro da minha cabeça
dentro do meu coração
a gente senta e deita e se remexe no ambiente
não que seja desconforto
mas também não é estar confortável

também faz parte da confissão te dizer que dessa vez foi profundamente dolorido

por me enrolar nas minhas reflexões que constantemente se perdem por aí
também me enrolo nas decisões
também ensurdeço sobre o que as pessoas não me dizem
tecendo esse cobertor de (des)considerações que vezenquando revolve pra cima de mim
e às vezes quem puxa ele pra cima de mim sou eu mesma, aos chutes e mesmo sem perceber
me sufocando e me matando de calor
e pra me livrar preciso rasgar com dentes e unhas
o que me envolve pra além do cobertor

eu me atirei da janela naquele dia de chuva e me estatelei nua no asfalto ali da rua

e escuto
palavras sobre pensamentos que nunca tiveram espaço em mim
(na palma da minha mão tem a presença da ausência daquele tanto de linhas)
e deduções sobre o que sinto, o que tu sente, o que acontece
têm coisas dessas que são capazes de cortar a minha carne exposta
enquanto aos poucos me liberto do cobertor
e do que me envolve pra além dele

e só pra constar
sabendo que de alguma forma as pessoas sabem
não possuir e não querer possuir
ser, estar, deixar ser e deixar estar uma pessoa liberta
do padrão que nos quer atados de forma sufocante
no qual eu já vivi a minha infelicidade
batendo de frente com ele e rachando sua concretude
não é questão de desafeto
não é questão de luxúria
não é questão de putaria e nem de ausência de laço
não é não-amor


-


desarmo o que envolve meu coração
afasto os grilhões de ferro com suas toneladas de peso
estouro os cadeados pra que não possa mais usá-los

nos momentos de guerra
nos momentos de amor


já sabendo que no fim
não existe de fato alguém que vence nisso tudo


e eu me entrego

7.10.15

passei o dia

me recheando de silêncio
assim como o dia passou bastante silencioso por mim
a não ser aquela trituradora de cana-de-açúcar na feira por onde passei
e a grama molhada da chuva inconstante grudou na saia que eu usava
a grama grudou, grudou um pouco de terra, a chuva grudou na minha pele
e
eu
sus
pirei

quanto do que eu escrevo é real dentro e fora de mim quanto do que eu escrevo é pra me fazer acreditar quanto do que eu escrevo é mentira quanto do que eu escrevo é pra fazer acreditar quanto do que eu escrevo me habita tudo do que eu escrevo é porque eu pego essa minha cabeça e esse meu coração e minhas dores e medos e amores e anseios e desejos
e
chacoalho
e espremo
até sobrar só o bagaço
igual sobra de cana-de-açúcar triturada depois de retirado o caldo
às vezes eu guardo tudo em uma jarra bem bonita na geladeira
às vezes eu jorro tudo gramados afora

hoje eu parei a bicicleta do lado de um dos banquinhos da beira-mar
esse era o banquinho onde eu dava meia-volta quando comecei a pedalar com mais afinco
era só até onde eu conseguia chegar numa ida-e-volta sem perder tanto o fôlego
hoje eu quero devorar as ruas e estradas e chãos que se apresentam diante de mim

o mar revolto por um vento que anuncia as tempestades que virão formava ondas
coloridas de terra
e eu senti um frio igual àquele que dá na gente naqueles fins de tarde depois de um dia de praia de banho de mar
que a gente insiste em permanecer na areia mesmo sabendo que vai morrer de frio com o vento que vem
o vento mensageiro de tempestades chacoalhava um barquinho colorido
igual meu coração chacoalha aqui dentro o tempo todo
às vezes eu acho que o barquinho vai virar de cabeça pra baixo vai todo mundo morrer afogado
às vezes eu acho que quem tá no barquinho deu um jeito de criar asas
e já tá lá longe voando nadando no céu


eu parei a bicicleta do lado de um dos banquinhos da beira-mar
e esse era o banquinho onde eu dava meia-volta quando comecei a pedalar com mais afinco
era só até onde eu conseguia chegar numa ida-e-volta sem perder tanto o fôlego
mas hoje eu parei a bicicleta lá só pra olhar o mar se revoltando dentro dele mesmo



e eu quero devorar as ruas e estradas e chãos que se apresentam diante de mim
e além
e eu vou