9.11.12

Incandescente

A mulher dança na rua, ensopada de chuva azul e suor de mel. As roupas, feitas da junção de milhares de flores, grudam-se ao corpo macio, os braços movimentam-se graciosos, as pernas e pés deslizam sobre as poças, os cabelos enrolados e negros embalam-se com o movimento dos quadris. O vento traz consigo o cheiro do gengibre dos chás, e os filhos e as filhas, cujos pais são todos desconhecidos, dançam ao redor da mãe cigana, tomados pela mesma alegria. E a música flui por dentro dos corpos insanos, cantada pelos Seres Maiores, plenos de bondade, que habitam casas de árvores no centro do pântano que fica ao sul.
Depois que a chuva passa, regressam ao barraco familiar, um só cômodo cheio de bauzinhos onde as crianças guardam seus brinquedos-tesouros feitos de pedaços de Lua. Quando resolvem que é hora de dormir, deitam-se assim meio de lado sobre a terra quente e tão logo adormecem, o corpo trata de aquecer-se em febre e os sonhos são sempre muito lindos.

Certa noite a mãe sentou-se no meio da casa e espalhou as muitas cartas do baralho que era da bisavó.
As crianças ficaram atentas esperando o sortilégio, aguardando ansiosas boas novidades. Depois de virar a última carta, desenhada com pássaros e um sol magnífico, a mulher levantou-se, puxou a saia para que não tropeçasse nos panos enquanto caminhava, e cantou sobre o desenho das estrelas no céu e sobre astronautas. A casa converteu-se em sorrisos e encantamentos: a Lua choveria de novo na próxima semana.

A Lua chove em pedaços cujas formas parecem nuvens, esbranquiçados, e eles se encaixam formando mil coisas. E a Lua tem cheiro de goiaba. Tudo é festa quando a Lua chove.




Noutra noite, depois da chuva da Lua, a mãe acordou todos os filhos e todas as filhas e organizou-os de tal forma que cada mais velho tinha em seu colo um irmão dois anos mais novo. Assim que eles aquietaram-se, ela falou sorrindo, doce e sublime:
- Sonhei que toda pessoa pura e bonita convertia-se em estrela. Não que se aquecesse ou se esfriasse, muito ou pouco, mas emitia luz.



As crianças olharam-se encandilhadas* e em segundos as pupilas dilataram-se violentamente.

O brilho da casa foi visto de longe.









*"Encandilhar" deriva de "incandescente", na língua portuguesa existe como como o verbo "deslumbrar".

27.10.12

Sobre as combinações de fios e as vidas (s)em cores

Cloto* tece meu fio da vida em linhas banhadas de cores
segura o fuso e fia, cuidando da vida de deuses e humanos
durante todos os muitos movimentos terrestres
em seu aposento celeste, intocável
ao lado de suas outras duas irmãs, fúnebres

Eu passei minha vida metamorfoseando tais cores
corpoalmacoraçãoemente
Meu eu de agora não se reconhece em meu eu de alguns poucos anos atrás
eu não sei explicar se isso é bom
mas me sinto em paz durante quase todo o tempo

Láquesis* sorteia minha passagem em vida
puxa e enrola o fio que Cloto lhe oferece sem sorrir
A Roda da Fortuna gira e gira feito a roda-gigante verde da praça
acho que agora estou no período inferior
menos desejável
ou talvez eu só esteja olhando as coisas de cabeça pra baixo
e ainda não percebi


Em que momento de tantas estradas,
sorrisos, sangue, suor e letras
meu fio enroscou em tantos outros fios?
E por quê?


Sinto que Átropos* afastou o pequeno nó
que eu deixei formar na minha linha
com outros fios
E, sem tirar a vida de nós, afastou-os enquanto eu lacrimejava

Mas algum nó em minha mente permanece...



Ontem conversei com um Leão vermelho e o que ele me disse ecoou em sonhos
"Não gaste essa tua energia tão linda com esses pensamentos, menina
o que as pessoas fazem às vezes é muito pequeno diante de tudo do mundo


Nós estamos no caminho
e tu és luz"





*Moiras, mitologia grega - três mulheres responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio da vida de todos os seres.

20.10.12

De marinheiro

Paivatar fiou outro de seus tecidos dourados
e me presenteou, fazendo dele um vestido em tubo
enrolando-me desde os seios até pouco acima dos joelhos

e então assoprou minha nuca e sorriu
"vá e se deixe sentir, pedaço de mim"

meu amor resolveu nascer
rasgou meu lado interno com suas mãos leves
de amor sempre sincero, bondoso, puro
amor de menina
camada por camada até o exterior
aí esses meus olhos marearam e eu sorri
pro amor-meu sentado em minha frente feito Desperto
ele sorriu-me de volta,
lambeu o suor que escorria das minhas têmporas
doce

na ponta do lençol, ele fez um rasgo como fez em meu ventre
e passou o pano pela minha cintura,
delineando o curvar desse corpo-alma
que, agora desperto, ajeita a cama enquanto canta
e põe na infusão a canela recebida das mãos da avó

um nó de marinheiro enroscou tudo ao final
trempe, chicote ou singelo
depois ele trançou meus cabelos

e pôs as mãos leves nas minhas costelas




Crescente é a Lua no céu muito escuro
e ela sorri pra mim também...





Paivatar: descrita no poema finlandês "Kalevala" como a Virgem resplandescente, é uma deusa solar fiandeira, deusa do verão. O tear que ela tecia para si era de ouro; para sua irmã, Suvetar, a deusa da primavera, era de prata.

1.10.12

6:59 AM - Shane Koyczan

eu tenho dito
que as pessoas no exército
fazem mais às 7 am
do que eu
em um dia inteiro

mas se eu acordar
às 6:59 am
e ir até você
para traçar a linha dos seus lábios
com os meus
eu terei feito o suficiente
e não terei matado ninguém
no processo.