18.6.13

o mapa que tu me deste me fez chegar aqui

eu desobedeci as placas, pulei os muros
e quebrei as janelas
enquanto vinha, corri fugindo de mil cachorros brabos
debaixo de um sol de muitos calores
deitei no telhado de uma casa preta
e vi as cores das roupas do varal derretendo

eu morri

me levantei tonta de fome e cansaço
me apoiei nos joelhos e, olhando em frente,
eu vi o Sol vomitando fogo no horizonte

e congelei

te puxando pela manga do casaco
sussurrei -não me perdoe por esse amor gigante
que te assusta
mas me diga se anseias por ele, que eu te amo

tu me olhaste, piscando os olhos
e resolveu se agarrar em outras atrás de muros brancos
ou por cima de bancos amarelos
e meu coração, bobo, grande e vermelho
sangrado de sentimentos
parou por dois segundos



virei pro outro lado do céu
pra perceber que eu vivo sempre em ciclos
é tipo a roda da fortuna
ou a correia da bicicleta

eu sempre volto pra um porto
o mais cheio de luz de todos
por cima do mar eu deixei meu barquinho
e fui pela areia até o farol
pra assistir embaçada de lágrimas e suspiros
uma Lua completando seu ciclo de gravidez

16.5.13

Otsoa*

Existe um povoado bem além daqueles morros enormes. As casas são feitas nos troncos das árvores e as pessoas se estendem nas raízes gigantes na hora da sesta, roncando e sonhando com a enchente e os animais marinhos. São polvos e lulas e ouriços e peixes e baleias nadando por entre as árvores cobertas de água.


Tem um lobo que mora em cima do morro mais alto da região - que é também o mais alto do mundo. Ele vive lá há séculos, preso numa caverna, e ninguém sabe explicar direito de onde ele veio ou de que forma foi parar por lá. Tem gente que diz que foi da vez que o mundo inteiro alagou, a mesma vez que povoa os sonhos de todos, e nessa ocasião o lobo nadou durante meses... e foi parar pra cima do morro. Tem gente que diz que ele era homem moço, e dedicava amor pra uma mulher moça que só o amava de volta em noites de lua cheia e só debaixo das flores brancas venenosamente perfumadas, até que uma noite ele adormeceu sufocado e acordou virado lobo, em cima do morro.
 Quando faz calor o lobo rosna, fazendo os telhados gemerem de medo, e as pessoas suam com seu bafo quente, e o suor tem cheiro de flor branca. Quando faz frio o lobo uiva, assovia desvairado, e enlouquece as pessoas do povoado que amam as outras em silêncio, enchendo de som os ouvidos e os cérebros delas, porque sentem o amor pra dentro.


Quando nasceu a segunda filha daquela que teria vindo quarenta gerações após a mulher moça que todos diziam ser o amor do lobo, ele atirou-se do morro. Andou dificultosamente por entre a neve do inverno durante um mês; chegou aos campos de milho durante a primavera e alcançou a mata no verão.

 
Encontraram-no lambendo os pés da menininha e o mataram.




A menina cresceu, entrou no mar e virou sereia.
E o mundo alagou-se das lágrimas da mãe dela.









*Basco, significa "lobo".

14.4.13

Amans*

Brotou no céu o esplendoroso círculo de fogo
aquecendo tudo 
e beijou a minha boca

Na hora do almoço o Sol coube no meu abraço
e então, carinhoso, lambeu meus cotovelos

Antes de partir, ele chegou-se em mim
esquentou meu ventre
e soprou no meu pescoço

Na noite esclarecida
Céu de Brigadeiro em modo noturno
a Lua Crescente sorriu
enquanto aqui embaixo meus olhos eram nuvens carregadas

No amanhecer doutro dia
olhei pra cima 
e vi dois arcos-íris encurvados sobre a cidade






*Do latim, significa “Amante”: aquele que ama

3.4.13

Sótão

-tem um lugar aqui nessa cidade que nunca chove
e nunca amanhece
e nunca nada muda
e só eu sei onde fica -
ela sussurrou entre os dentes que rangiam de frio

puxou-o pela manga da blusa
que tinha um desenho de bergamota no centro
arrastando-o em máxima velocidade
por todos os setenta e dois degraus
até o último andar da casa

-vês?

o teto era eterna noite
um bilhão de estrelas que dançavam

e o guri bonito de olhos bondosos
cabelos compridos e barba mal feita
confundiu todos os brilhos enquanto lacrimejava
e sussurrava pra todas as deusas e todos os deuses
-ela transborda alegrias pra todos os lados
derrama e encharca as paredes de todos os prédios
se aninha no meu ombro e espera meu beijo na testa
que eu não tenha medo de tanto amor
que eu não desperte nunca, por favor...