29.1.13

Alguns minutos de segundas


Deixei as Mulheres de Galeano de lado
pra ler as letras de Gabriel
com seus trocadilhos e um abraço inesperado
numa segunda manhosa de sol e calor
Quase tropecei nas escadas da caixa capitalista
paredes de cimento e sem janelas
(pra não deixar sentir que o tempo passa do lado de fora
e incentivar o consumo que deixa os seres desumanos in-felizes)
e trabalhei trabalhei trabalhei
debaixo do ar-condicionado
até quase as 2
um número que me faz sentir sono e talvez um pouco de cansaço


Pra então chegar em casa sozinha
abrir as janelas enfim e me encher de vento
revirar a mochila e perceber
que tu Beleza não me permitiu estar completamente só, de fato



Passei alguns minutos (me) sentindo um dois diferente do relógio

28.11.12

Mencantas

dois olhos bondosos
e a imensidão de um céu cheio de vento no reflexo deles
e a barba que enrosca no meu cabelo despenteado
imensamente conectados
afetoluzenergiamor

conversas sobre a mãe-terra e generosidade
conversas de encaminhamentos de almas e karmas
conversas temperadas com cravo e canela
um suco de laranja, um chá de angico
e flores espalhadas pelos vasos coloridos nas janelas

coincidências astronômicas, de números, de irmãos

um sonho por um sonho
de creme

sorrisos sorrisos sorrisos sorrisos sorrisos sorrisos sorrisos

e abraços sem fim...




"Me desassossega, rega a alma, roga a calma em minha travessia
(...) Nos amorizar o dia, fio, corredor, a calçada, o passeio e a sala
Se perder sem se podar e se importar comigo
Aprender você sem te prender comigo"
(Trechos de Você me bagunça - O Teatro Mágico)

9.11.12

Incandescente

A mulher dança na rua, ensopada de chuva azul e suor de mel. As roupas, feitas da junção de milhares de flores, grudam-se ao corpo macio, os braços movimentam-se graciosos, as pernas e pés deslizam sobre as poças, os cabelos enrolados e negros embalam-se com o movimento dos quadris. O vento traz consigo o cheiro do gengibre dos chás, e os filhos e as filhas, cujos pais são todos desconhecidos, dançam ao redor da mãe cigana, tomados pela mesma alegria. E a música flui por dentro dos corpos insanos, cantada pelos Seres Maiores, plenos de bondade, que habitam casas de árvores no centro do pântano que fica ao sul.
Depois que a chuva passa, regressam ao barraco familiar, um só cômodo cheio de bauzinhos onde as crianças guardam seus brinquedos-tesouros feitos de pedaços de Lua. Quando resolvem que é hora de dormir, deitam-se assim meio de lado sobre a terra quente e tão logo adormecem, o corpo trata de aquecer-se em febre e os sonhos são sempre muito lindos.

Certa noite a mãe sentou-se no meio da casa e espalhou as muitas cartas do baralho que era da bisavó.
As crianças ficaram atentas esperando o sortilégio, aguardando ansiosas boas novidades. Depois de virar a última carta, desenhada com pássaros e um sol magnífico, a mulher levantou-se, puxou a saia para que não tropeçasse nos panos enquanto caminhava, e cantou sobre o desenho das estrelas no céu e sobre astronautas. A casa converteu-se em sorrisos e encantamentos: a Lua choveria de novo na próxima semana.

A Lua chove em pedaços cujas formas parecem nuvens, esbranquiçados, e eles se encaixam formando mil coisas. E a Lua tem cheiro de goiaba. Tudo é festa quando a Lua chove.




Noutra noite, depois da chuva da Lua, a mãe acordou todos os filhos e todas as filhas e organizou-os de tal forma que cada mais velho tinha em seu colo um irmão dois anos mais novo. Assim que eles aquietaram-se, ela falou sorrindo, doce e sublime:
- Sonhei que toda pessoa pura e bonita convertia-se em estrela. Não que se aquecesse ou se esfriasse, muito ou pouco, mas emitia luz.



As crianças olharam-se encandilhadas* e em segundos as pupilas dilataram-se violentamente.

O brilho da casa foi visto de longe.









*"Encandilhar" deriva de "incandescente", na língua portuguesa existe como como o verbo "deslumbrar".

27.10.12

Sobre as combinações de fios e as vidas (s)em cores

Cloto* tece meu fio da vida em linhas banhadas de cores
segura o fuso e fia, cuidando da vida de deuses e humanos
durante todos os muitos movimentos terrestres
em seu aposento celeste, intocável
ao lado de suas outras duas irmãs, fúnebres

Eu passei minha vida metamorfoseando tais cores
corpoalmacoraçãoemente
Meu eu de agora não se reconhece em meu eu de alguns poucos anos atrás
eu não sei explicar se isso é bom
mas me sinto em paz durante quase todo o tempo

Láquesis* sorteia minha passagem em vida
puxa e enrola o fio que Cloto lhe oferece sem sorrir
A Roda da Fortuna gira e gira feito a roda-gigante verde da praça
acho que agora estou no período inferior
menos desejável
ou talvez eu só esteja olhando as coisas de cabeça pra baixo
e ainda não percebi


Em que momento de tantas estradas,
sorrisos, sangue, suor e letras
meu fio enroscou em tantos outros fios?
E por quê?


Sinto que Átropos* afastou o pequeno nó
que eu deixei formar na minha linha
com outros fios
E, sem tirar a vida de nós, afastou-os enquanto eu lacrimejava

Mas algum nó em minha mente permanece...



Ontem conversei com um Leão vermelho e o que ele me disse ecoou em sonhos
"Não gaste essa tua energia tão linda com esses pensamentos, menina
o que as pessoas fazem às vezes é muito pequeno diante de tudo do mundo


Nós estamos no caminho
e tu és luz"





*Moiras, mitologia grega - três mulheres responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio da vida de todos os seres.