20.3.11

Meias brancas

Teus braços formaram um tecido ao meu redor, que caiu bem em meus ombros; tecido bonito, macio, parnasiano. O abraço foi rápido. O leito era pequeno mas tu te encaixaste nele de uma forma confortável e dormiu, ainda com o chiclete de hortelã na boca. O teu cabelo desarrumado, comprido e preto seguia as ondas do travesseiro que seguia as ondas dos teus sonhos. Eu te escutava falar enquanto dormias, contando peripécias, e a minha risada de volume controlado te deixava um pouco mais desperto.
Duas horas inteiras te olhei a dormir, preocupada com o calor, com a tua improvável doença, com a tua insanidade, pequeno irmão. E então o dia amanheceu e eu fui embora, e não voltei mais, não te vi nunca mais.


Não te consideres importante. É só porque tu pareces uma criança enquanto dorme.

3.3.11

Diariamente

Não tenho me mostrado inteira do jeito que sou.
Não tenho me expressado do jeito que gostaria.
Não tenho me cuidado direito e minha saúde anda falha.

Há algum tempo não escrevo a minha verdade.

Há algum tempo não mereço ser lida. Desculpe.

1.2.11

Invisível

Era um vulto magro no meio da escuridão da tempestade que caía sem parar desde a semana anterior. Ela sentia os pulmões se retorcerem de dor, a tosse frequente voltando - a pneumonia não foi tratada do jeito certo, ela sabia. A roupa começou a encharcar-se enquanto ela virava a curva, descia o morro, passava em frente à igreja velha. E a água fria confundiu-se com o corpo dela parado no meio da rua, os olhos fixos em qualquer coisa imperceptível à frente. De tão molhados os tecidos chegavam a pesar mais do que ela, que pendia para os lados conforme o vento soprava.
Os pingos gordos da chuva ricocheteavam em seu rosto, em suas costas, em seus braços nus e em suas pernas à mostra por causa da roupa curta de verão, e isso a machucava. O perfume dela era embalado pelo vento e entrava pelas grades dos portões e fechaduras das portas e espalhava-se nas salas-de-estar quentes das casas bem-pintadas onde famílias felizes jantavam.
O barulho abafado de risadas e vozes permaneceu quando ela abriu arrastando um portão enferrujado perto do poste pintado de laranja até alguma altura, dando acesso a uma servidão, e isso a tranquilizou: continuava a não ser notada pelas pessoas ao seu redor. Um filete um tanto largo de água descia junto a seus pés, sujando-os de barro, e ela caminhava cuidadosamente sobre as pedras da ruela.
Aproximou-se da casa bem ao fundo, pintada de cinza, uma única janela na parede, escancarada. Na ponta dos pés, ela olhou pra dentro do quarto iluminado por uma luz azul-celeste. Lá dentro era diferente, ela sentia, lá dentro ela seria alegre. E tinha alguém sentado na cama, recostado na parede, ensaiando a melodia da música da noite.

16.12.10

Ainda lembro

A massa polar atlântica vai durar até terça-feira, e então acontece o solstício de verão - eu sei por causa da Geografia e do calendário que está sempre em cima da mesa. Até agora não deram permissão pro céu voltar ao azul original dele. Azul, assim, igual os olhos com pés-de-galinha do bisavô.
O biso às vezes roncava alto e nunca reclamava das coisas, vivia me esperando na porta com aquele sorriso tão e tão lindo no rosto (sorriso bonito de índio que nunca usou dentadura), os óculos na ponta do nariz, o cabelo com quase todos os fios brancos e macio que mais parecia algodão, e gostava de cafuné. Ia levando consigo a idade com número grande, andava arrastando os pés, um passinho lento, e um rádio pequeno na mão, frágil igual a ele.
E a bisa sempre muito ajeitada e perfumada, sentava-se no sofá e pedia que escovassem seu cabelo, que não era comprido, era bem curtinho. E eu o fazia, mesmo quando ela não pedia, porque eu gostava de ficar perto dela. Ela era linda, bordava toalhinhas e fazia casacos de lã para a família, e reunia a gente no Natal e no Ano-Novo.
Quando a bisa ficou muito doente e morreu eu gritei de tristeza, ecoou pelo apartamento que eu morava e sei que fez eco até o Parque de Exposições, de tão triste que era. Eu imaginava as pessoas que morreram caminhando por nuvens em chamas, porque a tia Odete me disse, quando eu perguntei do tio Otomar, que ele era bombeiro e que foi resolver alguns problemas no céu. Não entendia direito esse negócio de morrer, só sabia que ela não ficaria mais comigo; e sabia que era triste, porque quando o biso escutava a oração no rádio, ele chorava de saudade como quando a gente chora se perde um amor.
Eu e o biso sentávamos pra assistir Chaves e Chapolin na TV, ficávamos abraçados a tarde inteira, dando risadas bem juntinhos, a barriga de um tremendo encostada na barriga do outro, que também tremia. Quando o dia escurecia ele colocava no canal que passava as notícias e dava "boa noite" pro apresentador. Nos intervalos ele prestava atenção no sorteio do carnê que pagava fielmente, uma vez até xingou o moço de "mentiroso" porque ele falava que "hoje pode ser o seu dia de sorte!", mas o dia de sorte do biso nunca chegava.
Quando o biso morreu eu já começava a entender esse negócio de dizer adeus. Os bens foram partilhados entre filhos e netos, na minha casa veio parar a mesa grande das jantas festivas, alguns cobertores e um guarda-roupas, e o cheiro de naftalina tirou disso tudo o cheiro do biso e da bisa.
Mas quando eu passo a mão no meu cabelo e sinto a mesma textura do cabelo deles, quando às vezes abro o potinho que tem o cheiro da bisa, quando caminho de chinelos pela casa e eles fazem os barulhos que o biso fazia quando caminhava, sei que eles nunca me deixaram, sei que eles não estão mais no mundo, mas estão em mim.