3.10.11

Eu sou louca

Escreverei um manual inteiro de algumas tantas páginas pra ti,
lições inteiras de como me entender e me amar.
(E me ame, por favor, porque eu preciso).

Enquanto tu me adivinhas, rindo do teu jeito imbecil
eu posso inventar as notas pra uma canção que ninguém mais conhece
só a gente
por mais que agora não queira as notas,
só queira os muros da tua casa que eu nunca mais vi
e o sofá velho que me acolheu quando eu fiquei cansada do mundo.
(Invadi a tua vida, a tua casa e me apossei do teu sofá velho).

Na manhã seguinte eu acordei com o cheiro de café,
com um bom dia sussurrado e um sorriso imbecil.
E aí tu deitou no meu colo pra eu te contar alguns fatos
como o de eu ter fugido de casa, ter sido assaltada,
ter encontrado uma moeda de 25 centavos na rua,
ter comprado um sanduíche pra um cara
que estava imensamente triste
porque foi expulso de casa.
(Mas não fui expulsa da tua casa, porque tu gostas de mim).



E eu tanto te quis e te quero que criei um cosmo
e é tudo muito complicado, porque eu gosto das coisas assim,
e porque pelo menos lá eu tenho a certeza de que existirá
enfim
"nós".

25.8.11

Leeba*

Os cabelos desciam-lhe graciosos pelas costas até o quadril; originalmente cacheados, agora eram lisos, escorridos, desgrenhados, mal-cuidados, sujeitados às intempéries da cidade grande cheia de prédios. As orelhas de tamanho médio, esteticamente perfeitas. As maçãs do rosto muito magras, nunca coradas. O nariz arrebitado e muito especializado em sentir o cheiro do primeiro grande amor da sua vida: bebida alcoolica contida em garrafas de vidro ou de plástico. Os olhos eram pequenos, pálpebras pesadas, dois círculos escuros desprovidos do poder de expressão, só brilhavam se refletiam os neons alucinógenos que iluminavam as fachadas das lojas, que nunca estavam de portas abertas pra ela; só os bares a acolhiam. Os bares e os homens.
Mas ela só amou duas vezes durante sua passagem pelo mundo, aliás. O álcool e um só homem.
Do homem teve dois filhos. Desde a primeira conversa veio a certeza de querer engravidar dele, já que ele pagou tão gentilmente qualquer pedaço de massa pingando azeite fétido e com a carne por dentro fria, dura e semicrua, mas que agradou o paladar pouco refinado. Do restaurante de estrada foram para uma casa qualquer e seis meses depois saía dela uma criança morta, que ela jogou na privada do barraco onde foram morar e deu a descarga.
O segundo filho a fez sofrer nove meses inteiros e ainda mais duas semanas. Ela quase morreu segurando o guri dentro do ventre, se fez inumana para tanto, mas tinha um propósito: "assim o cérebro dele ficará maior e ele será mais inteligente do que todas as crianças daqui e eu terei pelo menos um orgulho na vida". O sonho se desfez assim que o pequeno Einstein nasceu, deformado e sem as mãos.
Raivosa, matou-o. E fez do cérebro superdesenvolvido a janta da noite que sorria de escárnio, toda estrelada.



*Nome yidish, de origem germânica, significa "amada". Leeba também é usado em Israel, com origem hebraica, significando "coração".

1.8.11

Constate

Há uma mulher que mora no fim da rua
sua casa é desbotada e tem cheiro de camomila
Ninguém entra lá e quando a encontram junto ao portão
apenas perguntam, desviando o olhar,
(porque os mais velhos mandaram assim fazer)
"Olá, dona Louca, como está?"

E ela responde com um sorriso que diz
"Só estou querendo fazer sangrar de tristeza
o coração ansioso de quem espera
por alguém que não virá"

2.7.11

"Maya"

vem do hindu. Significa "ilusão".




Seja bem-vindo, Julho gélido.